27/04/2011

“Estourar independe da posição geográfica”

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Quem garante é o editor do magazine eletrônico Urbanaque, Leonardo Dias – acostumado a apresentar em São Paulo bandas e artistas dos mais longínquos rincões do Brasil

Por Cristiano Bastos

Era uma vez três irmãos que, aficionados por música, precisavam encontrar um meio de  dar vazão a opiniões sobre o tipo de som que ouviam. Assim nasceu o Urbanaque (www.urbanaque.com.br). Criado em 2002 em Presidente Prudente, a revista eletrônica migrou para a capital paulista em 2005 por uma simples razão: a enorme dificuldade de encontrar bons discos – principalmente de bandas novas do mercado independente. “No começo, eu achava que a gente estava falando apenas para nós mesmos. Mas, em menos de um ano veio um feedback legal por parte de gravadoras e artistas interessados em apresentar seus trabalhos. Aí, percebemos a carência que havia nesse mercado”, conta Leonardo Dias, editor do Urbanaque.

Nesta entrevista a APLAUSO, o jornalista (que também é advogado) fala sobre cena independente, sucesso e artistas gaúchos. E refuta qualquer suposição envolvendo a tradicional camaradagem: “Nosso espaço foi cavado baseado em opiniões diretas, falando apenas dos artistas e bandas que nos agradavam, sem nos pautarmos pela política da “brodagem” que reina nesse meio”.

Consequência direta do magazine eletrônico, a promoção de shows começou quando a Funhouse (tradicional “clube de rock” paulistano) convidou a Urbanaque para fazer a curadoria de uma noite mensal. A “Urbanaque Apresenta” se transformou em uma extensão daquilo que os Dias Pereira pensavam e gostavam. O que inclui uma busca incessante por gente de fora do eixo local e também próprio rock. Superguidis (RS), Lucy and The Popsonics (DF), Nevilton (PR), Boss in Drama (PR), Superquadra (DF) e foram alguns nomes legais que passaram pelo palco da Funhouse.

Em 2010, a casa optou por não fazer mais shows. Agora, a turma da Urbanaque procura um novo habitar para perpetuar o que eles mesmos chamam de “loucuras que, se não nos trazem compensações financeiras, ao menos nos deixam muito orgulhosos em tentar trazer um pouco de boa música para as pessoas”. Seja feita vossa vontade: vida longa a estes malucos.

“O sul tem uma tradição interessante de ser o celeiro de bandas que fogem do lugar-comum e carregam muitas idiossincrasias da região”
Leonardo Dias Pereira

APLAUSO: Como vocês veem o mercado de rock no Brasil?
Leonardo Pereira: O rock, depois do grande processo de evangelização aplicado pelas bandas dos anos 80, e da consolidação por algumas nos anos 90, chegou aos anos 2000 e atravessou a década quase que ombreando com a dita MPB – e, na atual década, é importante ressaltar a atuação dos cariocas do Los Hermanos em aproximar o rock da MPB. O rock é mais do que uma realidade. Atualmente, a linha que separava o mercado mainstream e o alternativo ficou tênue demais. Bandas do segundo pulam para o primeiro em questão de alguns dias (ou vários cliques, como manda a lógica da internet). Mas, quando isso ocorre, não raro acontece um processo de “amansamento” da sonoridade destas bandas contempladas pela transição, o que é imposto pelas suas contratantes (leia-se, grandes gravadoras ou investidores), tirando como exemplo a banda Cachorro Grande.

APLAUSO: Que relação vocês têm com as bandas do Sul?
Leonardo Pereira: O Urbanaque sempre se pautou pela vontade de buscar a boa música independentemente de estilo, região ou país. Basta o artista ou banda apresentar qualidade e potencial. O sul tem uma tradição interessante de ser o celeiro de bandas que fogem do lugar-comum e carregam muitas idiossincrasias da região. Boa parte não se torna fenômeno de venda ou popularidade, mas depois de um tempo acabam sendo cultuadas, como é o exemplo da Graforréia Xilarmônica e dos Superguidis.

APLAUSO: Pra vocês, São Paulo ainda é a “Meca” para bandas que querem estourar?
Leonardo Pereira: Por mais que seja clichê, com o fluxo alucinante de informações imposto pela popularização da internet, “estourar” hoje independe da sua posição geográfica. Até porque o próprio conceito de “estourar” tornou-se elástico demais. Uma banda pode ser considerada sucesso se tiver uma música que toca em propaganda de celular, se for falada por vários blogs e cadernos culturais, se fechou com alguma gravadora estrangeira ou nacional, se tocou fora do país, se foi escalada para um grande festival, por aí vai. O ideal seria a conjugação de todos esses fatores, mas tudo é muito relativo atualmente quando falamos em sucesso. São Paulo tem a conveniência de ser um grande polo cultural que abarca vários nichos musicais (ou cenas, se preferir), e muitos deles possuem espaços e alcances distintos – e também não se comunicam. Por exemplo: em São Paulo existe uma cena ska. Suas bandas, produtores e frequentadores se encontram em lugares determinados. Conheço bandas que vieram de fora, se inseriram nessa cena ska e conseguiram sobreviver com sua música. Mas existem casos de bandas de fora, como a Mickey Gang, do Espírito Santo, que estouraram residindo no estado natal.

APLAUSO: Então, pode-se dizer que fincar bandeira em São Paulo não é algo obrigatório?
Leonardo Pereira: Se a banda consegue atrair público fora de sua cidade ou região natal, a mudança pra São Paulo não é necessária. O que seria interessante, e é o que muita banda faz, é realizar algumas temporadas na cidade. Pode ser de fim de semana, uma semana ou um mês. O legal é dar as caras para o público paulistano sempre que tiver oportunidade. Um dos destaques de 2010 foram os paranaenses do Nevilton, residentes na simpática Umuarama. Eles tiveram destaque em veículos de porte, como a MTV e a Rolling Stone, sem fixar residência na capital paulista, tocando apenas nesse esquema de temporadas. São Paulo tornou-se a mãe do rock no Brasil nos últimos tempos justamente por ter várias coisas ligadas a essa cultura, como casas de shows, revistas e fanzines, lojas de roupas etc. E a tendência é crescer ainda mais.

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