27/04/2011

Do outro lado do rio

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Embora “invisível”, uma integração extremamente profissional se afirma, a cada temporada, no panorama do rock independente sul-americano

Por Cristiano Bastos

Enfim, a música latina se movimenta para transpor a fissura geocultural que aparta países na América do Sul. Brisas continentais sopram a favor do rock. E a política da boa vizinhança entre bandas e países vem ajudando a estreitar relações. Cambiando experiências e sonoridades, roqueiros argentinos, uruguaios, brasileiros, colombianos e de outras nacionalidades, também ganharam o trânsito das Américas. É possível que, em nenhum outro momento da história, as fronteiras dos países de língua espanhola tenham ficado tão receptivas ao livre ingresso da música jovem como hoje estão. O filão é festa garantida para o rock independente. Passaporte na mão (talento e um mínimo de estratégia) e as bandas brasileiras podem sonhar com a viabilidade de uma carreira internacional – só para não dizer “continental”. A junção bilateral de esforços em prol do rock deixou, há muito, de ser um projeto em curso nas décadas passada. Converteu-se, na realidade, em prática com alto grau de profissionalismo no século 21.

O intercâmbio entre as bandas funciona e, por sua conta e risco, os grandes festivais independentes (em especial os brasileiros) têm se mostrado os maiores interessados nessa abertura cultural. Na verdade, o rock latino vai bem. Ainda assim, é meio como Cuba: ainda tem de conviver com embargos. Ser ignorado pela mídia e passar batido pelo gosto seriado do grande público são apenas alguns dos mais prosaicos desafios. No Brasil, a batalha dos artistas latinos com interesse em nosso mercado musical não é apenas grande – tem proporções monstruosas. Mas, para vingar por estas plagas, antes, os artistas hermanos são obrigados a solucionar a velha charada – aquela que ainda faz sua dissimulada troça pelos Pampas: em nome dos libertadores e revolucionários latinos, seria possível cativar a audiência brasileira (numerosa até nas “comarcas indies”) pouco familiarizada com os linguísticos enlevos do castelhano? Enquanto não descobrem a fórmula para resolver essa “equação pop”, a solução mais sensata soa, também, como a mais justa. É simples, mas teria de partir de nós, brasileiros: parar e ouvir, de fato, nossos vizinhos.

O jornalista, produtor e pesquisador musical Fernando Rosa é um estudioso da história do rock da América do Sul. Ele não tem a chave para o enigma, mas faz muitas apostas no rock latino-americano – mesmo com o cenário adverso, embora promissor, que caracteriza o mercado das bandas independentes. Uma de suas cartadas é o projeto Senhor F Festival – El Mapa de Todos, que congrega artistas de diversos países da América do Sul para tocar no Brasil. Para Rosa, o El Mapa traduz para o rock independente um sentimento, cada vez maior, de integração que está acontecendo entre países e culturas da América do Sul. “A integração, para ser duradoura e verdadeira, tem que ocorrer tanto no terreno social como cultural. A música é um dos principais caminhos”, aponta Rosa. A integração da América do Sul, ele explica, acontece por variadas rotas. Vai desde a criação do Parlamento do Mercosul até o projeto de uma rodovia de ligação com o Pacífico, via Peru, às novas linhas áreas que conectam as diversas capitais e outras iniciativas fundamentais no terreno da infraestrutura. “A integração para a qual ninguém dá muita bola avança pelo terreno cultural, onde a música possui grande força pela sua natureza imediata de comunicação”.

É nesse espírito que, no rock, as iniciativas proliferam. A plataforma de festivais independentes organizada e estimulada pela Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin) e pelo Núcleo Fora do Eixo promovem a vinda regular de bandas sul-americanas ao Brasil. A política integracionista dos festivais independentes levou aos palcos brasileiros bandas como Los Natas e Satan Dealers (Argentina) e Supersónicos (Uruguai). A mesma “força” é respaldada do outro lado da fronteira.

A gaúcha Superguidis, recém-extinta, realizou uma mini-turnê pela Argentina e pelo Uruguai, anos atrás, para depois subir no palco do festival Ciudad Emergente, em Buenos Aires, com atração internacional. Na Argentina, o selo Scatter Records, da brasileira Sylvie Picolloto, organiza o ciclo Music is My Girlfriend. A integração é a força-motriz do movimento. Sylvie leva bandas nacionais para tocar na Argentina, e vice-versa. E lança discos de independentes brasileiros no país como fez com Autoramas, Superguidis e MQN. Toda a movimentação de bandas e artistas nas fronteiras atraiu a atenção da Petrobras. Em seu edital de apoio aos festivais independentes, a empresa estipulou – entre as exigências contratuais – a inclusão de bandas independentes do Mercosul na escalação dos festivais aprovados.

Em outros momentos da história, Roberto Carlos, Charly Garcia, Paralamas do Sucesso e Soda Stereo abriram as fronteiras dentro da velha lógica do mercado das majors. Só que, agora, o intercâmbio é mais profundo: envolve troca de informações, de tecnologias e contribui para a construção de um novo tipo de mercado. “Um processo que artistas pioneiros como os gaúchos Vitor Ramil e Arthur de Faria, por exemplo, conhecem bem, mas que precisa se tornar uma prática comum na região”, lembra Fernando Rosa. A entrevista que você lê a seguir, com Fernando Rosa, é esclarecedora para quem almeja entender um pouco mais desse contexto sul-americano.

“O rock sempre conectou a juventude”
Fernando Rosa, editor do portal SenhorF (www.senhorf.com.br) e produtor do festival El Mapa de Todos

APLAUSO: Qual é a cara do rock independente mundial?
Fernando Rosa – Olha, acho que esta “cara” ainda está em construção, mesmo que existam vários exemplos interessantes. Antes, até pouco tempo atrás, não hesitaria em citar imediatamente bandas como Sonic Youth, Pavement, Guided By Voices. Mas hoje, diria que artistas de qualquer parte do mundo poderiam se identificar nessa nova cara. Assim como a internet horizontalizou o acesso a informação, de alguma maneira existem grandes artistas em qualquer parte do planeta. O problema atual talvez seja que não exista mais uma cara, mas várias. Javiera Mena, do Chile, Turbopotamos, do Peru, ou El Mato a Un Policia Motorizado, da Argentina, poderiam ser diferentes representantes dentro desse mundo globalizado. O Brasil, pela sua dimensão, tem muitas caras, algumas delas já conhecidas no exterior. Em suma, a comunicação moderna é uma festa de fogos de artifício, o “disco de ouro” já virou “bronze”, e nada indica que isso vai decantar tão rapidamente.

APLAUSO: O futuro do independente, no longo prazo, é o mainstream? Ou são “água & óleo”: não se misturam?
Fernando Rosa – Essa discussão é tipo a do ovo e da galinha, se consideramos os padrões antigos. Tempos atrás, o Lobão chamou a cena independente de “segundona”, ou seja, aspirantes à primeira divisão. Mas, hoje, como disse o Beto Só em artigo no Senhor F, os independentes estão mais para Copa Brasil. Tem muito Santo André dando de relho, como dizem os gaúchos, nos Flamengos da vida. Também, com o “disco de ouro” em 36 mil vendidos, qual a diferença entre o Skank e o Teatro Mágico? Quem é mainstream e quem é independente? Mas, do ponto de vista de qualidade autoral, da construção de um novo mercado, a diferença existe. Os melhores lançamentos vêm do independente e o mercado mais vivo é também o indie, por meio da plataforma de festivais da Abrafin e dos selos alternativos. Acredito que, em meio à crise, floresce um novo espaço de divulgação, de relações diferentes entre artista e público e um novo mercado.

APLAUSO: Musicalmente, que o interesse o El Mapa pode despertar?
Fernando Rosa – O mais interessante é o mosaico, o recorte do momento que conseguimos montar, reunindo artistas clássicos, emergentes e novatos. Na edição de Brasília (novembro de 2008), anterior à de Porto Alegre (realizada em abril de 201), por exemplo, tivemos a presença da argentina Babasonicos, a maior banda da América do Sul atualmente. Também convidamos Sr. Chinarro que, com dez discos gravados, é uma legenda do indie espanhol, que tem tradição. A novata Javiera Mena é atualmente o nome mais falado da nova música chilena, confirmando o acerto em tê-la trazido ao Brasil. Os peruanos Turbopotamos, depois que se apresentaram no El Mapa de Todos, abriram para o R.E.M e para o Oasis no Estádio Nacional de Lima. Então, acho que oferecemos ao público brasileiro uma bela oportunidade de ouvir o que, de fato, é o melhor do pop latino atualmente. Mas, claro, em cada um desses países existem outras bandas, tão boas quantas, que poderiam estar no festival.

APLAUSO: O Brasil pode liderar esse novo mercado?
Fernando Rosa – Liderar, no sentido de atividade econômica de dominação, não. Até porque o intercâmbio ainda é pequeno entre o Brasil e os demais países. Possivelmente, até se vende mais música brasileira na América do Sul, do que se consome música latina no Brasil. Mas, pela dimensão continental, pela quantidade de grandes cidades, o Brasil pode ser uma possibilidade de atuação para os artistas sul-americanos. Assim como as capitais sul-americanas podem deixar de ser “um lugar distante”, além-fronteira, para se tornarem locais tão ou mais próximos do que se locomover dentro do Brasil. Então, o que vislumbro é a possibilidade de um grande mercado sul-americano, onde os artistas circulem mais, toquem mais em diferentes países. Isso é o que está movimentando a nova música brasileira hoje, e é o que pode e deve aproximar aristas, públicos, produtores e selos nos próximos anos. Com a bendita ajuda da internet, é sempre bom lembrar.

APLAUSO: O que festivais assim podem trazer de bom ao Cone Sul?
Fernando Rosa – Pela primeira vez na história do continente sul-americano, os governos interagem de forma coordenada e em favor dos interesses de suas populações. Estamos superando (assim esperamos) anos, décadas, séculos de exploração, de divisões internas, sempre em prejuízo dos povos da região. Isso nos terrenos da política, da economia, da infraestrutura, com iniciativas como a Unasul, o Parlamento do Mercosul, o Banco do Sul, a conexão energética etc. A cultura, e a música em especial, como ponta-de-lança em qualquer processo de aproximação entre diferentes povos, não pode ficar de fora. O festival é uma pequena contribuição com essa disposição integracionista, compartilhada por importantes parceiros.

APLAUSO – Quem diria um dia o rock seria elo entre a juventude dos países vizinhos…
Fernando Rosa – Olha, na verdade acho que sempre foi. Lembro que no tempo das infames ditaduras, nas décadas de sessenta e setenta, especialmente, isso de alguma maneira já ocorria. Os jovens exilados, autoexilados, perseguidos que eram obrigados a sair de seus países, traziam em suas mochilas, ao menos alguns discos. Ou um violão, onde reproduziam as canções que mais lhes tocavam, que tinham a ver com suas vidas, naquele momento agredidas pelo exílio involuntário. Particularmente, conheci muita coisa assim, como Sui Generis, Pescado Rabioso ou Daniel Viglietti, de onde, aliás, vem a inspiração do nome do festival, tirado de verso da música “Milonga de Andar Lejos”

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