13/05/2011

Batuta giratória

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Anos atrás, um drama pessoal obrigou o oboísta Alex Klein a redirecionar sua carreira para a regência. Polêmico, o maestro tem chamado a atenção pelas críticas que faz ao modo como a música erudita é conduzida no Brasil

Por Greta Mello
Foto: Jefferson Collacico / Agência Estado
Em 2000, o porto-alegrense Alex Klein era o principal oboísta da Orquestra Sinfônica de Chicago quando se deparou com um drama pessoal. Vítima de distonia focal, síndrome que logo o impediria de continuar tocando o instrumento regularmente, teria de diminuir o ritmo de sua bem-sucedida carreira como virtuose. O que era desolação, no entanto, deu lugar a um plano: em vez do oboé, a batuta. Já trabalhando como maestro, resolveu fazer mais: em 2006, criou o Femusc, festival de música de Santa Catarina, realizado anualmente em Jaraguá do Sul e considerado um dos mais importantes palcos da música erudita do Brasil. Hoje, aos 46 anos e com a bagagem de já ter rodado o mundo diversas vezes, Klein (que segue tocando oboé como músico convidado em diferentes países) fala o que pensa, sem papas na língua. Recentemente, demitiu-se do cargo de diretor artístico do Teatro Municipal de São Paulo, abrindo mão de um salário de R$ 35 mil por não concordar com decisões políticas. depois, criou nova polêmica ao enviar uma carta aberta a Roberto Minczuk, diretor artístico e regente titular da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, criticando o método de avaliação imposto aos músicos da instituição. Nesta entrevista, Klein solta o verbo e, sem receios, desponta como um enfant terrible na música erudita brasileira.

Você foi um talento precoce. Com apenas 9 anos transcreveu de ouvido a 40ª Sinfonia de Mozart. Como decidiu fazer da música sua profissão?
Eu era um enfant terrible. A orientadora escolar sugeriu que o meu futuro fosse nas artes ou no esporte, alguma coisa que envolvesse muita energia. Seguindo essa ideia, meus pais decidiram ver se a música ‘acalmava a fera’ e, com 9 anos, me levaram a um festival. Vi a orquestra, os músicos, a movimentação do público e me encantei. Apontei para o meio do palco e escolhi o oboé, sem nem saber o que era. Hoje, essas crianças conhecidas como os ‘terríveis do colégio’ tomam Ritalina. Eu me sinto um privilegiado por não terem tentado me acalmar assim. Só me deram um instrumento para dar vazão à minha energia.

Como foi encarar, no auge de sua carreira [Klein é até hoje o único brasileiro a conquistar um Grammy de música erudita, em 2002], uma doença que o afastaria do oboé, instrumento no qual você é um dos maiores virtuoses do mundo?
Eu estava na Orquestra Sinfônica de Chicago quando descobri que sofria de uma deficiência neurológica que me impedia de tocar com certa frequência. Foi traumático. Eu me tornei músico profissional aos 11 anos de idade, então tudo o que fiz foi com o oboé por perto. E, de repente, me tiraram isso. Sofri uma crise de identidade, tive de me redescobrir.

Foi aí que decidiu virar maestro, diretor artístico, seguir trabalhando com música…
Sim. Pensei, então, o que devo fazer se tenho o respeito de colegas como os músicos de Chicago e não posso mais continuar lá? Eu os trouxe ao Brasil e o sucesso foi imediato. Desenvolvemos um festival, buscando preencher lacunas existentes aqui. Então, o Femusc virou um laboratório, onde apontamos o dedo para vários problemas do mercado e estimulamos a próxima geração para que cresça pensando em corrigi-los. Hoje, eu atuo como maestro, mas não posso dizer que sou maestro. Continuo sendo músico, apenas diversifiquei minhas atividades. Às vezes, o público tem a impressão de que o maestro tem um papel de superioridade e liderança, mas ele é um facilitador, uma pessoa que consegue juntar todos os músicos através dos sinais e criar uma coisa que faz sentido a todos.

No início de março, você enviou uma carta aberta a Roberto Minczuk, diretor Foto: Jefferson Collacico / Agência Estadoartístico e regente titular da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, posicionando-se contra as audições internas propostas para avaliar os músicos. Por que você fez isso? Recebeu alguma resposta da parte dele?
Não. Não houve resposta alguma do maestro Minczuk, algo que muito me desapontou. Escrevi também à Fundação OSB e não recebi resposta. A impressão que ficou é mesma sentida pelos músicos: não existe diálogo. A diretoria da fundação não se sentou com eles para decidir como melhorar a qualidade da orquestra, e tampouco dialogou com profissionais experientes, que poderiam oferecer apoio, auxiliando em possíveis entraves. Em vez disso, o que vimos tanto por parte do maestro Minczuk quanto da fundação foi uma decisão fechada e feita estritamente dentro da administração. Os resultados estão aí para todos verem: um desastre de proporções internacionais e um exemplo de mau planejamento. Não foi por falta de aviso.

Antes dessa manifestação, você também esteve envolvido em uma polêmica no Teatro Municipal de São Paulo. Por que, em pleno ano do centenário da instituição, você pediu demissão do cargo de diretor artístico, poucos meses depois de assumi-lo?
Estou acostumado a encontrar dificuldades, mas fiquei muito desapontado com o que encontrei. Não há profissionalismo. Se você precisa de um maestro, você não convida um amigo seu. É preciso chamar alguém com experiência, com algo a contribuir. Muitos cargos lá, alguns de vital importância, são ocupados por gente que é ‘amigo de campanha’. Alguns políticos querem manter cargos com pessoas de confiança em todos os lugares, inclusive com gente desqualificada. Isso prejudica o crescimento da cultura no Brasil. Eu tinha de explicar o que era um fagote ou por que às vezes uma ópera é marcada a cada dois ou três dias. Cheguei a ouvir que ‘se o Paul McCartney, que tem 60 e tantos anos, canta todas as noites, por que uma ópera não poderia ser assim?’. São coisas muito desagradáveis, que puxam o nível do trabalho para baixo. A minha indignação, como diretor artístico, brasileiro e contribuinte, é que cargos assim são deixados nas mãos de pessoas sem responsabilidade. O Teatro Municipal de São Paulo não é pequeno, é histórico, e um dos maiores centros culturais da América Latina. A minha responsabilidade era grande. Vi meu trabalho sendo diluído dentro da instituição. O único remédio que me sobrou foi o da renúncia.

Mas você foi convidado por um político para assumir o Teatro Municipal de São Paulo.
Sim, pelo secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil…

Que, na sua opinião, é um político maduro para esse tipo de escolha?
Isso é o que a gente espera. No entanto, o mesmo secretário escolheu a diretoria administrativa do teatro. E meu nome foi sugerido pelos músicos da orquestra. Então, o que ele fez foi levar em consideração a sugestão.

Foto: Jefferson Collacico / Agência EstadoAo mesmo tempo, em Jaraguá do Sul existem algumas críticas envolvendo o Femusc, como a de que os artistas locais não têm espaço no evento.
Acho que isso é infundado. Existe uma expressiva porcentagem de professores catarinenses. Além disso, temos há três anos o Femusckinho, no qual 130 crianças da região aprendem as primeiras notas. Já existe até um grupo de crianças que participou do encontro, ficou impaciente em esperar o próximo evento e montou uma orquestra. Também fazemos um simpósio com professores locais para discutir a nova lei de educação musical e criamos um encontro de bandas. Santa Catarina briga com São Paulo pela primeira posição em número de alunos durante o festival.

E por que a orquestra de Jaraguá do Sul, sediada no próprio teatro onde acontece o festival, não participa do Femusc?
Porque eles estão de férias nessa época. O festival acontece em janeiro e a participação é facultativa, não forçamos ninguém. Mas essa não é a única orquestra que convidamos. O problema é a época.

Em 2006, ano da primeira edição, quem abriu o festival foi a orquestra de Jaraguá, correto?
Sim, mas houve um custo. E o Femusc não pode mais bancar o custo de contratar uma orquestra, que é de cerca de R$ 30 mil por concerto. Aí todo mundo vai querer. Convidamos, no ano seguinte, orquestras residentes, como a de Córdoba, por exemplo, que veio de ônibus. Todos os anos, trazemos uma orquestra residente, o que é mais compatível com o projeto educacional do Femusc.

Então vocês não pagam a nenhuma orquestra?
Exato.

Há quem critique a concentração de recursos da iniciativa privada no Femusc, deixando o município enfraquecido de outras atividades culturais no restante do ano.
Veja bem, o Femusc tem 600 alunos, 12 eventos, simpósios, conferências e concursos. São 78 professores, grande parte deles do exterior. Oferecemos alimentação e alojamento para todos. Isso custa aproximadamente R$ 1,5 milhão. O Femusc é um festival-escola, no qual as apresentações são feitas pelos alunos. Então, comparado a outros festivais de música erudita, o Femusc é extremamente barato. O Festival de Campos do Jordão (SP), por exemplo, custa cinco vezes mais. Se fosse o caso de o Femusc estar interrompendo outros trabalhos, veríamos uma redução de eventos na Sociedade Cultura Artística (teatro onde acontece o festival), o que não ocorre.

Mas existe a ideia de dar mais dimensão ao festival?
Claro, temos um projeto aprovado, aguardando captação. Mas o Femusc não é a única iniciativa. Todas as atividades que ocorrem durante o ano também merecem apoio. Precisamos ter certeza de que o projeto [realizar atividades relacionadas ao Femusc o ano inteiro] não vá causar problemas ou insuficiências orçamentárias a outros eventos. Por melhor que seja o projeto, tem de funcionar bem com os vizinhos. Acredito muito no Femusc e, prova disso, estou fazendo um novo festival, no mesmo estilo, em Minas Gerais. Além disso, o sucesso do Femusc trouxe nova luz para o desenvolvimento de festivais em todo o Brasil. Estamos mais unidos. Tenho conversado bastante com as direções dos festivais de Juiz de Fora (MG), Londrina (PR) e Campos do Jordão, por exemplo.

*Entrevista publicada na APLAUSO 111

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