11/05/2011

Todos os carnavais

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Dos clubes às avenidas, do intercâmbio à influência gauchesca, a maior festa popular do brasil vem ganhando nova estatura no Rio Grande do Sul

Por Claudio Britto*

Colorido que vem de fora: Apesar de não ter vencido em 2011, a Império da Zona Norte chamou a atenção do público porto-alegrense com as cores vibrantes das fantasias vindas do Rio de Janeiro

Carnaval eu escrevo com maiúscula, sempre. É um caso de paixão, dedicação e responsabilidade, que encaro como a missão que o Senhor me delegou. Assim mesmo, sem exagero algum. Há pessoas que pintam, outras são geniais escultores, poetas, cronistas, cantores ou romancistas brilhantes. Bailarinos e coreógrafos receberam o dom divino de nos darem o encantamento dos movimentos da dança. E, nos palcos, atores e atrizes atuam para mexer com nossos corações. Para mim, faltando-me esses talentos, tocou-me a admiração pela manifestação mais abrangente de todas as artes, o Carnaval.
A ópera é a que mais se aproxima de um desfile de escola de samba. Com a diferença da evolução. Uma ópera em movimento, com milhares de almas envolvidas, de uma forma concatenada pela magia. Canto, dança, música, literatura e artes plásticas, o Carnaval tem de uma só vez. E o “libreto” da ópera está posto na sinopse do enredo.

Acrescente-se a competição. Uma guerra, com bandeiras, estandartes e as legiões que as alas representam. Este é o Carnaval de minha adoração, o das escolas de samba, que ficam o ano inteiro trabalhando por um momento de sonho. O Carnaval tem muito de sagrado, por mais que o imaginem apenas como uma grande festa profana.

Paulo César Pinheiro já ensinou, quando compôs Portela na Avenida:

Portela, eu nunca vi coisa mais bela / Quando ela pisa a passarela / E vai entrando na avenida / Parece a maravilha de aquarela / Que surgiu / O manto azul da padroeira do Brasil / Nossa Senhora Aparecida vai se arrastando / E o povo na rua cantando / É feito uma reza, um ritual / É a procissão do samba abençoando / A Festa do Divino Carnaval!

Este belo samba de Pinheiro em parceria com Mauro Duarte é quase um cântico religioso. Compara o desfile a uma procissão, diz que a águia altaneira da Portela é o Espírito Santo, e termina assim:

Salve o Samba, salve a Santa, salve Ela / Salve o manto azul e branco da Portela / Desfilando triunfal / Sobre o altar do Carnaval!

Os sambódromos da vida são altares para o povo carnavalesco. Assim, restam bem claros o meu envolvimento e o espírito que me embala ao cumprir a tarefa que APLAUSO propôs. O espaço nobre que a revista entrega ao mundo da cultura e das artes se abre agora para a grande festa dos brasileiros. Já é indício de que vamos bem com o nosso Carnaval. Não ganharia estas páginas o que não fosse arte e cultura. Então, vale uma celebração a mais. A mesma que se faz quando toca a sirene da arrancada e a escola começa a procissão. O enfrentamento, o concurso, o julgamento. A arte posta em regulamentos, a avaliação partilhada nos quesitos. Bateria, Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Harmonia, Samba-Enredo, Evolução, Fantasias, Enredo e Alegorias examinados em décimos de ponto. Aí está a grande diferença do Carnaval. De um tipo de Carnaval, o da minha preferência. Mas há outros Carnavais.

Nos salões

Ainda resistem os bailes de salões. As marchinhas de todos os anos ainda são as preferidas dos casais. Em Porto Alegre, três grandes clubes repetem há algum tempo uma experiência reabilitadora, a Estação Folia. Farrapos, Lindóia e Caixeiros Viajantes organizam-se, fazem um calendário comum, evitam superposições de dias e horários, fazem boas festas pré-carnavalescas e dão atendimento pleno a seus associados de todas as idades. São animadores os bailes infantis, que asseguram a continuidade indispensável. Não acontecem mais os grandes concursos de fantasias, uma pena. Morreram Alberto Egger, Pompílio, Jorge, Wilson Oliveira e Reinaldo, alguns dos dedicados artistas que produziam e desfilavam fantasias de luxo ou de originalidade. Mais que isso, lideravam o movimento. Seus companhei-ros ainda se apresentam isoladamente, a maioria como destaques em escolas de samba e em alguns bailes do interior. O declínio dos bailes de gala e o estágio atual dos certames de fantasias são perdas consideráveis.

Nas avenidas

É nas ruas que, para muitos, está o melhor dos Carnavais. Até as bandas estão voltando. Duas delas, a Itinerante e a Saldanha, são casos muito especiais, pois agitam o ano inteiro em suas sedes, na Avenida Padre Cacique, o reduto mais concentrado do samba em Porto Alegre. Ali estão Imperadores do Samba, Academia de Samba Praiana e as bandas. A Itinerante faz um samba de raiz da melhor qualidade. Samba de mesa. A Saldanha é diferente, vai às ruas, faz belos passeios pela cidade em datas marcantes, como 1º de maio, 12 de outubro e 1º de janeiro. E, no Carnaval, se manda para o Rio de Janeiro. Faz seis anos que ela tem sucesso em Copacabana, sempre na terça-feira de Carnaval. Churrasco em plena Avenida Atlântica e depois um belo desfile pelas ruas do bairro mais famoso do Rio. A Saldanha e a Itinerante recebem grandes nomes do mundo do samba durante a programação anual. Neguinho da Beija-Flor, Dominguinhos do Estácio, Quinho do Salgueiro, Reinaldo, Luizito, Paulinho Mocidade e Ciganerey, entre outros, apresentam-se no palco da Saldanha em noites de segundas-feiras – datas mais agitadas do calendário permanente da banda.

Na Cidade Baixa, berço do samba gaúcho, ressurgiram a Rua do Perdão e a Banda DK, criações de Waldemar de Moura Lima, o Pernambuco, na década de 1970. O Bloco Maria do Bairro e outras confrarias movimentam com simplicidade e vibração um mapa formado pelas ruas da República, Lima e Silva, Sofia Veloso, José do Patrocínio e outras do lugar. É bonito. Quem não desce até a calçada, samba em casa mesmo, nas janelas e sacadas. E se a ideia partiu de alguns saudosistas, verdade é que a juventude vem com tudo e participa com entusiasmo.

No interior

O Carnaval do interior acompanha o bom momento que a Capital experimenta há quatro ou cinco anos. Escolas de samba da Grande Porto Alegre frequentam os desfiles do sambódromo do Porto Seco. Nenhuma delas foi campeã entre as grandes do Grupo Especial, mas são vencedoras habituais dos chamados Grupos Intermediários. Império do Sol (São Leopoldo), Protegidos da Princesa (Novo Hamburgo), Acadêmicos de Niterói (Canoas), Unidos de Vila Isabel (Viamão) e Acadêmicos de Gravataí apresentam-se muito bem entre as principais. Em suas cidades também fazem grandes desfiles. São Leopoldo destacou-se em 2011. Foi sede de seu próprio Carnaval e recebeu o Grupo de Acesso, numa decisão inteligente da Associação das Entidades Carnavalescas. Um desfile que deixava quase vazias as arquibancadas em Porto Alegre levou mais de 10 mil espectadores para a Avenida Dom João Becker.

Alguns lugares tradicionais de Carnaval retomaram sua energia depois de alguns anos sonolentos. É o caso de Taquari, que lotou o salão do Alvi-Negro e viu agitarem-se as “Turmas”, grupos de foliões mais chegados ao modelo dos trios elétricos da Bahia do que aos luxuosos desfiles dos Batutas da Orgia e dos Irmãos da Opa, que resistem em um padrão muito distante de suas histórias. A agitação de agora é envolvente, mexe com a cidade, mas é diferente.

Outros municípios fazem desfiles e bailes com muito destaque. O que tem se repetido e virou moda é a alteração do calendário. Para fugir da concorrência com Porto Alegre, Rio de Janeiro, Florianópolis e São Paulo, que a televisão leva a todas as casas, muitas cidades fazem seus eventos antes ou depois das datas oficiais. É o que acontece nas Missões. Santo Ângelo tem um bom Carnaval de rua uma semana antes do período regular. Alegrete, Caxias, Portão, Esteio e Sapucaia, entre outras, fazem a festa uma semana ou duas após os desfiles dos dias efetivos de Carnaval. O maior desses casos é o de Uruguaiana, com destaque nacional e internacional.

Uruguaiana

Uma ação civil pública impedia, na Justiça, que as escolas de samba de Uruguaiana ensaiassem e fizessem suas festas de preparação ao Carnaval de 2005. Recém começando seu governo, o prefeito Sanchotene Felice tinha pela frente, um mês depois da posse, o grande desafio de dar condições às agremiações que, sem a arrecadação em suas quadras, clamavam por recursos financeiros. O mandatário municipal mandou à Câmara de Vereadores um projeto de lei regulamentando datas e horários para ensaios, permitindo uma nova realidade na relação dos carnavalescos com a cidade. E fez mais, deslocou os desfiles para 15 dias após o calendário seguido pelos comuns dos mortais. Foi o grande lance.

Figuras destacadas do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre passaram a frequentar Uruguaiana e fizeram de seu Carnaval Internacional Fora de Época um caso especial. Seus desfiles tiveram espaço na mídia nacional e levaram à fronteira a Rádio Gaúcha e a TVCom, seguidas por várias emissoras, sites, revistas e jornais. O julgamento passou a ser realizado por jurados cariocas. Algumas figuras destacadas do Carnaval do Rio estão entre os avaliadores, como Renato Lage, Márcia Lávia, Kleber Komká, Rachel Valença, Helena Theodoro, Luiz Fernando Reis, Marcelo O’Reilly, Eugênio Leal, Anderson Baltar, Jorge Mendes, Chico Frota, Maria Augusta, Adelzon Alves e Manoel Dionísio, entre ou-tros. Uruguaiana é um sucesso. Agora, precisa retomar sua própria dimensão e reencontrar suas raízes, sem prejuízo do intercâmbio até aqui tão vitorioso. É que a importação de talentos tem sufocado o surgimento de seus próprios artistas. Mas, como em nenhum lugar, Uruguaiana tem o maior patrimônio que a cultura popular pode desejar: a cidade inteira curte de verdade o Carnaval. E sem o ranço que o choque das culturas às vezes apresenta.

Em muitos rincões, nativistas e carnavalescos entram em choque, com aquela velha história de não se permitir um samba em galpão de CTG. Ou, então, tenta-se repelir ou esconder a participação decisiva dos artistas do Carnaval na construção dos desfiles da Semana Farroupilha – que deixaram de ser apenas uma demorada passagem de cavalos e ginetes e se transformaram em belos espetáculos temáticos, com carros alegóricos, trilha musical e apresentação de invernadas artísticas como se fossem alas.

Em Uruguaiana é diferente. A começar pela trajetória de alguns de seus artistas, com trânsito livre nas duas manifestações. César Passarinho foi puxador de samba d’Os Rouxinóis antes de ganhar troféus nas Califórnias. João de Almeida Neto cantou o samba da Ilha do Marduque várias vezes e está lá todos os anos, liderando sua torcida. Os passos das comissões de frente são ensaiados nos CTGs e tem muito passista que também é bom de chula e sapateado.

Pode-se dizer que Uruguaiana tornou-se um desafio para os carnavalescos de Porto Alegre. A Capital não quis ficar atrás, buscou muita coisa do modelo uruguaianense e também estreitou seu intercâmbio com o Rio de Janeiro. A viagem dos cariocas para o júri de Uruguaiana passou a ter uma escala: a visita aos barracões do Porto Seco. Lá e na capital, gente apaixonada irremediavelmente pelo Carnaval.

Importação de talentos

Profissionalização é a palavra de ordem. As escolas de samba do Grupo Especial e mesmo algumas das preten-dentes à primeira categoria estão investindo em talentos de outros centros de Carnaval. A Restinga, campeã de 2011, trouxe do Rio o intérprete Wander Pires, consagrado na Mocidade Independente, Viradouro e Grande Rio. Wander foi vencedor duas vezes em um mesmo Carnaval, pois foi quem puxou o samba-enredo da Vai-Vai, campeã de São Paulo. Um fôlego privilegiado, uma voz muito bem trabalhada e uma logística acertada entre as duas escolas permitiram que Wander desfilasse uma noite aqui, outra no Anhembi.

Paulinho Mocidade, pelo segundo ano, respondeu pelo canto forte do samba-enredo dos Embaixadores do Ritmo, Ciganerey veio da Mangueira para a Samba Puro e houve ainda a contratação de carnavalescos e diretores por algumas agremiações de Porto Alegre e de Uruguaiana. O caminho inverso também foi aberto. Mestre Guto, da bateria da Restinga, Andy Lee, da Harmonia da Imperatriz Leopoldina, Vinicius Machado, dos Imperadores do Samba, e outros gaúchos foram ao Rio e participaram dos desfiles cariocas. É cada vez maior o número de sambistas daqui viajando para arquibancadas, frisas, camarotes e alas das escolas do Rio de Janeiro. Como aqui se desfila na sexta e no sábado, é possível aproveitar um pouco na capital do Carnaval. A fase atual é de ampliação de horizontes, visão mais clara de ideias de marketing, produção e coordenação dos desfiles como eventos e o Carnaval como um bom produto cultural e turístico. Os presidentes de nossas escolas de samba uniram-se para aquisição de material para fantasias, alegorias e adereços. Em mutirão, conseguem preços muito melhores e qualificam o visual, ponto importante de qualquer desfile. Fazem o mesmo para comprar instrumentos para suas baterias. Para os barracões também foram contratados alguns profissionais do Rio e de Parintins. Os aderecistas e escultores do Amazonas têm um jeito peculiar de confeccionar alegorias. Artistas dos Bois Bumbás colaboram com escolas de samba no Rio, em São Paulo e em Porto Alegre. A soma de todas essas providências tem dado ao Carnaval gaúcho um novo perfil e uma estatura mais significativa.

Poder público

Como indiscutível fenômeno cultural, o Carnaval merece a parceria das prefeituras, algum apoio do Estado e, em determinadas circunstâncias, verbas resultantes de incentivos federais, por conta da Lei Rouanet. Em Porto Alegre, cabe à Secretaria da Cultura a relação com as entidades carnavalescas, através da Coordenação de Manifestações Populares, cujo titular é Joaquim Lucena Neto, um homem do samba, de tradicional família de fundadores e dirigentes de várias escolas gaúchas – o que tem sido muito positivo para todos, sem dúvida.

Boa notícia veio da Secretaria Estadual da Cultura. O secretário Assis Brasil criou uma Coordenação de Carnaval, reconhecimento muito claro da dimensão alcançada pelas escolas de samba. A espera ainda é pela construção de um palco definitivo para o espetáculo. Falta-nos um sambódromo. O Porto Seco tem seus barracões e uma pista, mais parecendo um pequeno aeroporto. Ainda se faz a montagem anual das arquibancadas e camarotes.  É hora de se construir a estrutura permanente. Rio, São Paulo, Florianópolis, Macapá, Manaus e Vitória têm seus sambódromos e viram crescer a movimentação turística, comercial e industrial em torno do Carnaval. Porto Alegre tem pela frente o desafio de fazer do espaço que reservaram aos desfiles uma obra múltipla, que possa abrigar outras atividades, como oficinas de artes, escolas profissionalizantes e competições esportivas.

E, claro, o sambódromo estará pronto para servir de altar à devoção dos carnavalescos e leito de nossas procissões nem tão pagãs quanto pensam alguns. Dos clubes às avenidas, do intercâmbio à influência gauchesca, a maior festa popular do brasil vem ganhando nova estatura no rio grande do sul

*Claudio Brito é comunicador de Carnaval do Grupo RBS

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