11/06/2011

O insaciável homem-teatro

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Luciano Alabarse, o menino curioso que foi parar no mundo das artes cênicas por acaso, consolida-se como um dos mais importantes agitadores culturais do país

Por Paulo César Teixeira


Um dos últimos remanescentes da arquitetura colonial em Porto Alegre, o Solar do Paraíso anda agitado ultimamente. Construído por volta de 1820 e reinaugurado há pouco mais de dez anos, o casarão de fachada branca, fincado numa travessa arborizada do morro Santa Teresa, zona sul da capital gaúcha, abriga a coordenação do festival internacional de teatro Porto Alegre Em Cena – que completa 18 anos em 2011. Ali, o diretor Luciano Alabarse, um dos mais bem-sucedidos realizadores do teatro nacional, comanda a equipe que acerta os detalhes finais para a apresentação das principais atrações do evento.

Não bastasse isso, ao se deslocar por entre as salas arejadas do velho casarão, o artista também celebra uma das fases mais férteis da carreira, iniciada em meados dos anos 1970. “Ele é faminto, inquieto, insaciável, generoso, engraçado, raro. É a cobra do meu paraíso”, elogia a cantora Adriana Calcanhotto, amiga de longa data. Poucos momentos foram tão intensos para Luciano, como gosta de ser chamado, quanto os dias atuais. No começo de maio, estreou Ifigênia + Agamenon, inspirada em Eurípedes (480-406 a.C.), no Theatro São Pedro, em curtíssima temporada de quatro dias. Depois, o espetáculo segue no Teatro Renascença.

A fase inquieta e criativa tem a ver com súbitas mudanças, que alteraram sua rotina e ampliaram o tempo disponível para as artes. No ano passado, Luciano se aposentou do cargo de servidor do Tribunal Regional Federal, trabalho que, segundo ele, funcionou como um “fio terra” durante 37 anos. Além dos ensinamentos de senso de disciplina e organização, a rotina na Justiça Federal o livrou das oscilações econômicas tão comuns a quem vive unicamente da produção artística na cena local.

Além disso, em 2010 morreu dona Clélia, mãe de Luciano, aos 77 anos. Na ocasião, ele estava em Paris para acertar a vinda do espetáculo Os Náufragos da Louca Esperança para o Em Cena. “Ela morava comigo, éramos parceiros, cúmplices. O que me tirou do chão foi não estar aqui. Percebi o verdadeiro significado do ritual do velório como um espaço de despedida. Menos mal que o pequeno celular não parou de tocar com uma torrente de manifestações de solidariedade”, afirma. O ano de perda fez com que se dispusesse a “reinventar a esperança” com mais intensidade para evitar a depressão.

Da vila para o mundo

Quando as pernas são curtas, o mundo parece muito maior do que é. Para o moleque de uniforme escolar cor de mostarda e me-rendeira pendurada no ombro, tudo ao redor tinha a dimensão de uma tela de cinema. Algumas cenas desse filme se repetem com insistência na memória do artista.

No primeiro dia de aula, por exemplo, Luciano atravessou a Avenida Protásio Alves, puxado pelo braço da mãe, como se estivesse cruzando a fronteira entre dois mundos. Para trás ficava a Vila Bom Jesus, zona leste de Porto Alegre, reduto de famílias pobres. Do outro lado, estava o Colégio Farroupilha, tradicional escola de classe média, administrada por protestantes. “Naquele dia, pela primeira vez, tive noção de distinção de classe. E ser um bom aluno foi a maneira de ser aceito socialmente.”

O que mais chamava atenção do estudante no trajeto de um quarteirão até a grande avenida era a frase estampada na parede de madeira de um templo evangélico: “Para Deus, não existem os impossíveis.” Bem assim, no plural. “Havia uma beleza carregada de estranhamento e incompreensão naquelas palavras que me transtornava. Desde então, minha vida consiste em atravessar trilhas para chegar às metas propostas. Não tenho medo quando preciso ir ao encontro do amanhã, do misterioso. Gosto de pensar que nem tudo está planejado e sob meu controle.”

Biscateiros da cultura

Nascido em 13 de junho – aniversário de Santo Antônio e de Fernando Pessoa, como faz questão de destacar – de 1953, Luciano tem duas irmãs (Lúcia, um ano mais jovem, e Andreia, que nasceu 30 anos depois). O pai, seu Henrique, foi dono de armazém a vida toda. O bolicho funcionava como um “clube” na Vila Bom Jesus, onde os homens se reuniam ao final do trabalho para beber. O dono do estabelecimento chegou a construir um anexo para que também jogassem carteado e bilhar. O menino ajudava o pai no balcão, pesando gêneros alimentícios e anotando despesas de clientes que compravam fiado em cadernetas pessoais.

No começo dos anos 1960, caixeiros-viajantes gastavam sola de sapato oferecendo enciclopédias de porta em porta. Dona Clélia era uma das freguesas mais fiéis desses biscateiros da cultura. Antes de dormir, o pequeno Luciano grudava os olhos nas letras grandes e nas imagens coloridas mal iluminadas pela luz azul vinda do abajur. “Não podia ser uma lâmpada qualquer, precisava ser azul, não sei por quê. Com 12 anos de idade, lia também Dostoievski, Tolstoi e Rousseau, em coleções de capas duras e vermelhas, presentes da mãe que eu guardo até hoje. Às vezes, lia coisas que não entendia e gostava de não compreender. O mistério de não entender as coisas sempre me fascinou.”

Desde cedo, Luciano experimenta uma espécie de encantamento pelas palavras. É verdade que custou a falar. O médico deu o veredicto para a mãe aflita: “Ele não fala porque não quer”. Dito e feito. Quando soltou o verbo, aos 4 anos de idade, não parou mais. Para aprender a lição, por exemplo, tinha de estudar em voz alta. Gostava também de inventar enredos de novelas de rádio. Aliás, o nome que dona Clélia escolheu para batizar o filho foi homenagem ao herói de uma das novelas que ela escutava, depois do almoço – um tal doutor Luciano, aleijado e sofredor. “Ela chorava muito por causa do personagem. Eu agradeço a essa novela, porque eu gosto muito do meu nome, um nome bonito, sonoro.”

O teatro como um acidente

Por assim dizer, Luciano era o intelectual da família.
O destino do rapaz parecia estar Foto: Juliano Guedesselado: faculdade de Letras, com especialização em Literatura e Língua Portuguesa. Mas não foi bem isso o que sucedeu. A ironia é que Luciano transformou-se num homem de teatro graças a um tremendo equívoco. Cabeça avoada, na hora de preencher o formulário de inscrição para o vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em vez de marcar um X no quadradinho de Letras, como planejara, assinalou a linha debaixo, referente a Artes Cênicas. Só percebeu o engano quando escutou a lista de aprovados na rádio Gaúcha. Para não perder a matrícula, resolveu cursar o primeiro semestre na UFRGS, em paralelo ao curso de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – onde também havia sido aprovado –, que pretendia concluir em quatro anos.

No entanto, Luciano mudou de ideia logo na primeira aula que teve no Departamento de Artes Dramáticas (DAD) da UFRGS. O professor era Luiz Paulo Vasconcellos, diretor, ator, ensaísta e crítico carioca radicado no sul do país, desde 1969. O entusiasmo com que Luiz Paulo usava a palavra na sala de aula podia ser medido pela quantidade de tocos de cigarro que largava no chão – afinal, em 1972, era permitido fumar em qualquer lugar. “Quando ele abriu a boca e começou a falar com aqueles esses e erres profundos, minha vida mudou. Aquela voz foi como um relâmpago que iluminou um breu. Na hora, tive a certeza irremediável de que meu futuro era o teatro”, conta Luciano.

A turma que ingressou nas Artes Cênicas da UFRGS, no primeiro semestre de 1972, era composta por não mais do que dois alunos – além de Luciano, estava lá João Pedro Gil, ator e diretor teatral que, mais de 40 anos depois, é o atual chefe do DAD. “Tínhamos histórias semelhantes. Para ambos, o teatro não era a vocação preferencial”, conta Gil, que pretendia ser arquiteto. Eles firmaram um pacto: quando um não podia ir à aula, avisava o outro para que também não comparecesse e, assim, nenhum dos dois perdesse conteúdo. A dupla compunha uma parceria produtiva. Tanto que fundou o jornal Ex-cad-a – alusão à sigla CAD, de Centro de Artes Dramáticas, antiga denominação do DAD. O pasquim mimeografado alternava entrevistas, artigos e críticas sobre a cena teatral com uma seção de fofocas, a Cadinha, homenagem a Candinha, personagem de uma canção de Roberto Carlos. Nela, os redatores comentavam namoricos que aconteciam (ou não) nos corredores da escola.

O pior ator da face da Terra

Durante a década de 1970, o DAD montava anualmente espetáculos abertos ao público, com grande elenco formado por estudantes orientados pelos professores Luiz Paulo, Luiz Arthur Nunes, Graça Nunes, Maria Helena Lopes, Lígia Barbosa, entre outros. Durante o curso, Luciano foi assistente de direção em Escola de Mulheres, de Moliére, e estreou como ator em Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. “Era o pior ator da face da Terra”, afiança Luiz Paulo. “Faltava a ele ritmo, aptidão e, sobretudo, vontade de atuar”, acrescenta o mestre. O pupilo não se ofende. Pelo contrário, admite não sentir fascínio por subir ao palco. “Odiava aquilo, rezava para que acabasse de uma vez para eu sair de cena. Assim que pude me ver livre do compromisso escolar de participar das montagens dadeanas, fui fazer o que eu mais queria: dirigir”, confirma Luciano.

Nessa época, o Ex-cad-a promovia a entrega de troféus para atores e diretores das peças encenadas na escola, inclusive com direito a estatueta em formato de escada – produzida pelo ator Biratã Vieira. Já aí Luciano mostrava uma preocupação de envolver a sociedade com as coisas do teatro, ao convidar para a cerimônia de premiação personalidades como Tânia Carvalho, que apresentava o Jornal do Almoço, na antiga TV Gaúcha. Conforme Gil, o troféu Ex-cad-a inspirou a prefeitura de Porto Alegre a criar o Prêmio Açorianos, em 1977, inicialmente para teatro e dança. Hoje, estendida a todas as áreas artísticas, a premiação está plenamente consagrada. Em 1983, com a montagem de Pode Ser Que Seja só o Leiteiro lá fora, texto do amigo Caio Fernando Abreu, Luciano ganharia o primeiro dos 12 Açorianos que venceu ao longo da carreira artística.

Ratos no porão

Ainda aluno do DAD, Luciano passou a frequentar o Teatro de Arena, de Jairo de Andrade e Marlise Saueressig, na escadaria da Avenida Borges de Medeiros, no centro de Porto Alegre. De tanto ir ao local, Jairo lhe fez a proposta de trabalhar no espaço que, à época, era um dos principais focos de resistência cultural à ditadura militar. Durante seis anos, Luciano perambulou por ali. Quando a turma saía em turnê pelo interior do Estado, ele ficava com a chave para atender as pessoas que apareciam e, principalmente, não permitir que os ratos, literalmente, tomassem conta do lugar. “Se o DAD me deu a formação acadêmica, o Arena me ensinou o outro lado da moeda da profissão, como a dura batalha de ensaiar para depois estrear com menos de dez pessoas na plateia, o que era comum na época. Foi um tempo de semeadura”, relembra.

Em 1977, com o desejo de estimular o teatro amador, Jairo convidou a turma de diretores recém-formados, como Luciano, Carlos Cunha Filho, João Pedro Gil, Mirna Spritzer e Augusto Hernandez, a participar do Grêmio Dramático Açores. No repertório, figuravam montagens anárquicas como a A Lata de Lixo da História, única peça escrita pelo crítico Roberto Shwarz, inspirada em O Alienista, de Machado de Assis. No Açores, Luciano submeteu-se ao processo de criação coletiva, que estava no auge em função dos ideais coletivistas do movimento hippie. A experiência se repetiu com o grupo Descascando o Abacaxi, que tinha uma proposta coletiva de trabalho. “Não gostava daquilo e até hoje não gosto. Sei ouvir, recuar, agregar, dar espaço para a contribuição de todos os que participam da montagem, mas eu sou o diretor, quero assinar minhas ideias, não diluí-las”, resume.

Apesar de manter uma equipe constante de colaboradores, Luciano reluta em formalizar um grupo fixo de teatro, a exemplo de personagens emblemáticos da cena teatral, como José Celso Martinez (Grupo Oficina), Antunes Filho (Macunaíma) e Paulo Flores (Ói Nóis Aqui Traveiz), que arrebanham e renovam uma tribo de seguidores com o passar do tempo. “Não quero ficar confinado. Prefiro manter a porta aberta para entrar e sair. Mas admiro, e muito, essas pessoas que fazem das artes cênicas quase um apostolado. São verdadeiros homens de teatro. Eu sou um vira-lata”, brinca.

Trilha sonora

Outras modalidades de arte também atraem como ímã a atenção do diretor teatral. Uma das leituras recentes é As Benevolentes, de Jonathan Littell, um calhamaço de 900 páginas sobre atrocidades cometidas pelos nazistas. Eclético, leu há pouco o romance policial (gênero que devora como “sobremesa”) Os Comparsas, de Elmore Leonard. “Gosto de escrever, embora não seja escritor. Mas escrevo bem, principalmente quando estou furioso. Nessas horas, tenho uma lucidez formidável”, garante.

Na década de 1980, Luciano chegou a publicar três livros – Aquele um, Sem Essa Aranha e Esses Moços – em formato independente, vendendo bônus aos amigos para viabilizar a impressão. Como os títulos sugerem, remetiam ao universo da canção ao misturar ficção e reflexões sobre a música popular. Sem Essa Aranha acrescentava a experiência com terapias alternativas em voga na época, como a bioenergética de Wilhelm Reich. A rigor, a música aportou na vida do artista bem antes do teatro, mais precisamente pelas ondas do radinho de pilha pendurado na prateleira do armazém do pai. Volta e meia, o garoto se debulhava em lágrimas ao ouvir canções como Impossível Acreditar Que Perdi Você, na voz trêmula e apaixonada de Márcio Greick, um dos ícones da Jovem Guarda. “Choro até hoje. É uma das músicas da minha vida.”

Com Maria Bethânia e Adriana Calcanhotto

A afinidade com a arte musical incentivou amizades como a da cantora Adriana Calcanhotto, com quem conversou pela primeira vez no mezanino do Clube de Cultura, em Porto Alegre, em 1984. “Conheci primeiro os livros do Luciano, que tinham versos de canções incrustados no meio das coisas que ele escrevia. Fiquei louca com isso, virei fã e sonhava em conhecê-lo um dia. Depois eu o via de longe em saguões de teatro até tomar coragem de me aproximar e convidá-lo para dirigir meu primeiro show, Crepom”, conta La Calcanhotto. E acrescenta: “Depois vieram A Mulher do Pau Brasil, Vítima, Sei Que Estou Errada, Batom e muitos outros shows e performances que fiz sob a direção e cumplicidade dele. Aprendi muito com Luciano e sigo aprendendo”. Não por acaso, o mais recente CD da cantora, Micróbio do Samba, é dedicado a Luki (como ela costuma chamá-lo carinhosamente), Lupicínio Rodrigues e Jards Macalé.

Um dos destaques do trabalho mais recente de Luciano Alabarse, Ifigênia + Agamenon, é a trilha sonora, com canções de The Final Cut, disco de Pink Floyd lançado em 1983. “Não é a primeira escolha ou para ser moderninho. O disco fala das guerras contemporâneas, o que bate com o tema bélico da peça”, explica o diretor. Aliás, o adorno de textos clássicos com expressões da cultura pop já se fez presente em outros trabalhos. Em Édipo, a trilha era dos Rolling Stones. Segundo Antônio Hohlfeldt, crítico do Jornal do Comércio e professor da PUCRS, as trilhas usadas pelo diretor se revelam “provocadoras e provocantes, às vezes irritantes, mas sempre tocantes”. Hohlfeldt sugere que se faça um estudo acadêmico sobre a música das encenações de Luciano, tal a importância que elas adquiriram no conjunto de sua obra.

Parque de diversões

A carreira do diretor abrange duas fases distintas, como ressalta Hohlfeldt. A primeira se estende até meados da década de 1990, quando encenou preferencialmente autores brasileiros (Nelson Rodrigues, Marcílio Moraes, Naum Alves de Souza) e, sobretudo, gaúchos (Caio Fernando Abreu, Lya Luft, Carlos Carvalho e João Gilberto Noll). “Na fase inicial, ele mostrou preferência por dramas psicológicos, o que gerou a exigência de maior cuidado na interiorização dos personagens. Já aí se revelou excelente diretor de atores”, salienta o crítico. Nos últimos anos, Luciano vem se dedicando a obras clássicas da Grécia Antiga e de escribas de irretocável qualidade, como William Shakespeare, Thomas Bernhard e Samuel Beckett.

Com o amigo Caio Fernando Abreu, de quem encenou diversos textos

Ifigênia + Agamenon narra os bastidores da invasão da cidade de Troia pelos gregos, seguida de saques, torturas e assassinatos. O diretor agregou ao espetáculo cenas de As Troianas, também de Eurípedes, e Agamenon, de Ésquilo, para que o público compartilhasse os destinos resultantes da guerra na vida dos principais personagens. No elenco de 22 atores estão nomes como Fernanda Petit, Vika Schabbach, Marcelo Adams, Mauro Soares, Fabrizio Gorziza, Ida Celina e Carlos Cunha Filho. Há registros de que Ifigênia em Áulis tenha sido levada ao palco pela primeira vez em 405 a.C., após a morte do autor. “Não posso imaginar peça mais contemporânea para ser montada em 2011”, salienta Luciano. No texto de apresentação do espetáculo, ele explica: “Egito, Líbia, Afeganistão e Iraque não me deixam mentir. A invasão dos morros do Rio de Janeiro, meses atrás, da mesma forma. Os dez anos do ataque às Torres Gêmeas, idem. (…) Os gregos de Agamenon mostram que, lá atrás, com recursos diferentes, as decisões de Estado se impuseram aos homens, independentemente de suas vontades individuais. Exatamente como nos dias de hoje”.

Com Ifigênia + Agamenon, Luciano dá continuidade à busca de uma linguagem cênica que se opõe ao mesmo tempo à banalidade do teatro comercial e ao excesso de experimentalismo. “Identifico hoje na criação teatral uma obsessão pelo que é fragmentado, esquizofrênico, experimental no sentido do hibridismo das linguagens. Nada mais igual do que querer ser diferente. E nada mais banal do que fazer um teatro televisivo. Prefiro tomar um Lexotan e ir para casa dormir.”

Esta é a terceira obra clássica da Grécia Antiga encenada pelo diretor desde 2007. Antes, foram Medéia, de Eurípides, e Édipo, adaptação de duas peças de Sófocles (Édipo Rei e Édipo em Colono). “Nada me interessa tanto na dramaturgia quanto a tragédia grega. Ali tem tudo, desde a magia do parque de diversões, como todo bom teatro precisa ter, com homens que voam e engenhocas que se mexem, até a reflexão profunda sobre os sentimentos e conflitos humanos.”

Foto: Ricardo Lacerda

Um festival maior de idade

O Porto Alegre Em Cena, um dos principais festivais de teatro da América Latina, promovido pela prefeitura da capital gaúcha e criado por Luciano Alabarse, em 1993, está completando sua maioridade. “O Em Cena qualifica e aprofunda a percepção estética e emocional do público e dos produtores culturais de Porto Alegre. Talvez seja a obra-prima de Luciano”, atesta Luiz Paulo, um dos amigos mais próximos do diretor nas últimas três décadas. Os 18 anos do festival serão comemorados em grande estilo. A prévia foi dada em abril, no lançamento da programação, quando 17 bailarinos do Tanztheater Wuppertal, grupo da coreógrafa alemã Pina Bausch (falecida em 2009), apresentaram Ten Chi, espetáculo baseado na cultura japonesa, num Teatro do Sesi lotado.

A programação do Em Cena inclui desde A Flauta Mágica, ópera dirigida por Peter Brook, até Os Náufragos da Louca Esperança, espetáculo de Ariane Mnouchkine, fundadora do Théâtre du Soleil, passando pela performance de Bob Wilson como ator em A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett. Tem ainda a comédia Pterodátilos, dirigida por Felipe Hirsch, vencedora de três Prêmios Shell – Marco Nanini (ator), Mariana Lima (atriz) e Daniela Thomas (cenografia) –, além de Dentro da Noite, rara incursão do cantor Ney Matogrosso à função de diretor teatral, numa adaptação para o palco de dois contos do escritor carioca João do Rio.

A edição comemorativa do festival terá também música, “muita música”, como faz questão de destacar o produtor cultural. Além da velha amiga Calcanhotto, estará em Porto Alegre Estrella Morente, uma das mais belas vozes do flamenco contemporâneo, filha do lendário Henrique Morente. Estrella ficou conhecida do público brasileiro ao participar da trilha sonora de filmes como Volver, de Pedro Almodóvar. Ela também apareceu no telão, na abertura da montagem de Bodas de Sangue, texto de Federico García Lorca dirigido por Luciano em parceria com Luiz Paulo Vasconcellos, estreado em 2010, no Theatro São Pedro.

A cantora britânica Marienne Faithfull, que namorou o rolling stone Mick Jagger nos anos 1960, é outra atração do Em Cena, assim como o minimalista norte-americano Philip Glass e a baiana Maria Bethânia, recém-lançada ao centro de uma polêmica de repercussão nacional, depois de conseguir aprovação para captar mais de R$ 1 milhão em recursos pela Lei Rouanet para o lançamento de um site literário com vídeos de poesias.

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