10/06/2011

Sozinho, mas bem acompanhado

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Aos 62 anos de carreira, João Donato arranca aplausos Brasil afora com sua primeira turnê solo

Por Juarez Fonseca e Marcio Pinheiro

Foto: Divulgação

Desde maio, João Donato está em algum lugar do Brasil dando sequência à primeira turnê de piano solo, cuja estreia aconteceu em Porto Alegre. Escolheu o Rio Grande do Sul como uma homenagem a sua mulher, a jornalista gaúcha Ivone Belem. Um show de voz e piano é coisa inédita nos 62 anos de carreira do autor de sucessos como A Rã, Amazonas, Lugar Comum e Naquela Estação, pois ele prefere estar cercado de músicos. Sempre adiado, o projeto solo ganhou força em 2010, depois de o músico ter participado da turnê The 100 GoldFingers, em que, durante um mês, dez pianistas de jazz de diferentes países percorreram dez cidades do Japão tocando sozinhos e em duplas. Desde os 15 anos atuando como músico profissional, precursor dos caminhos que levaram à bossa nova, artista em constante movimento no sentido da criação, Donato parece estar sempre no auge da carreira de pianista, compositor e arranjador. Essa história será mostrada no documentário que está sendo rodado pela cineasta Tetê Moraes entre os Estados Unidos, Rio de Janeiro e Acre, onde ele nasceu.

O que de Acre há dentro de você, já que saiu de lá com apenas 11 anos?
Tudo, tudo, toda a informação que tive parece gravada numa fita. São impressões muito fortes, não se apagam com o tempo. A partir de 6, 7 anos, até os 11, você grava muita coisa que não será esquecida. Lembro da primeira música que me tocou, vendo um cara passar numa canoa, na beira do rio, assobiando uma melodia. Fiquei ali, um pouco melancólico, e pensei: mas que coisa estranha. Minha primeira composição foi para Nini, minha namoradinha. Eu tinha 7 e ela, 8 anos. Essas coisas, a gente não esquece. Ainda tenho muitos parentes lá, primos, tios, sobrinhos.

Mas ficou muito tempo sem visitar sua terra. Não lhe convidavam para se apresentar lá?
Depois que fui convidado pelo Jorge Vianna, quando ele era governador, passei a ir com mais frequência. O tempo passava e eu já tinha ido ao Japão várias vezes, a Moscou, a muitas cidades do mundo e brasileiras, mas ao Acre, não. Aí um dia o Jorge me convidou para inaugurar um centro de artes com o meu nome. Perguntei por que nunca vinha ao Acre. E ele: “Porque sou o primeiro acreano a governar o Acre”.

Em um texto publicado pela revista Piauí, você conta que desde cedo seu pai queria que você fosse músico. Começou por lhe dar um acordeom de brinquedo, depois um de verdade. Normalmente se espera que militares, como seu pai, sejam conservadores, e naquela época, anos 1940, a música não tinha o charme que adquiriria mais tarde…
Era coisa de vagabundo, de boêmio, de ébrio, mais ou menos por aí. Mas meu pai gostava que eu fosse musical e me incentivava. Quando viemos do Acre para o Rio de Janeiro, em um navio que ia fazendo aquelas paradas nos portos, Fortaleza, Recife etc., ele me levava nas rádios para me fazerem entrevistas, queria mostrar meu talento precoce para os outros.

Por que o acordeom?
O acordeom andou muito em voga naquela época, em todo o Brasil. Tinha o Luiz Gonzaga, o Pedro Raimundo, aqueles métodos, todo mundo tocava. Era moda, como mais tarde seria tocar violão. Mas também tinha um piano na minha casa, lá no Acre, em que minha irmã estudava. Era três anos mais velha, e eu acordava de manhã cedo com ela fazendo aquelas pequenas peças. Quando ela deixava o piano, eu ia para lá e ficava “perturbando”… Mas chamava a atenção dos meus pais porque não bagunçava, ia lá e procurava tirar uma melodia. Aí foram me dando corda.

Viremos a página. Lá pelos 15/16 anos, bom acordeonista, você fica sócio do Sinatra-Farney Fã Club, um dos, digamos, espermatozoides da bossa nova. Como foi isso?
Conheci Johnny Alf, um pouco mais velho, e ele me falou de um lugar em que os jovens se reuniam para ouvir discos. Lá conheci Dick Farney e outras pessoas que gostavam do jazz. Um dia, ouvi um disco do Stan Kenton e me perguntei: “Que negócio é esse, essa música tão boa?”. Cheguei em casa e não conseguia dormir com a impressão daquela sonoridade na cabeça. Na época, não tínhamos como gravar um disco.

É por aí que você assume o piano?
É, tinha 15 anos, meu pai me levou numa loja de instrumentos e mandou escolher um piano. Depois, o acordeom foi sumindo da minha vista. Ainda o levei para os Estados Unidos em 1959, quando fui encontrar os remanescentes do grupo da Carmen Miranda, o Bando da Lua. Mas não nos demos bem. Não me adaptei a eles. Tocavam Tico-Tico no Fubá e não sei que mais, e o que eu queria era tocar essas músicas influenciadas pelo Tom Jobim. Fiquei sozinho, sem referências, procurando meu destino…

Que num primeiro momento foi a música latina…
Fui tocar com as orquestras latinas, que era onde os músicos de jazz também achavam ocupação na época. Quando toquei com Mongo Santamaria, ele me mostrou vários discos de música de candomblé – que tem em Cuba e é igualzinho ao brasileiro, parece que você está na Bahia. Até aí, não era novidade para mim. O que eu não sabia era o estilo de tocar, não conhecia a tradição musical de Cuba. Disse a Mongo que não sabia tocar aquilo e ele respondeu que eu era pianista e que com o tempo iria me acostumar. Também toquei com a orquestra de Johnny Martinez, que me aconselhava a ouvir discos de Tito Puente, Perez Prado, Machito, pra ver como os pianistas tocavam.

E a Califórnia foi ficando melhor quando começaram a chegar mais brasileiros: Airto Moreira, Dom Um Romão, Eumir Deodato, Oscar Castro Neves…
Claro, aí a bossa nova começou a chegar por lá, depois daquele show no Carneggie Hall, em Nova Iorque. A bossa começou a pegar e os músicos americanos ficaram felizes, porque o jazz não era muito popular nos Estados Unidos. Na verdade, em lugar nenhum do mundo. O jazz sempre foi um negócio que meia dúzia gosta, mas a maioria prefere outra coisa, e então os músicos de jazz gostaram da chegada da bossa nova porque ela permitia que eles improvisassem e se tornassem populares. Você vê o Stan Getz, que entrou nas paradas de sucesso, coisa que o jazz nunca conseguiu. O disco de jazz que chegava mais alto era em 100º lugar, por aí.

Abaixo, Donato apresenta A rã, no Bourbon Street Music Club, em São Paulo, a convite do músico e radialista Daniel Daibem

Você se ressente de não ter ficado no Brasil, na época da bossa nova?
Não. Mesmo já com um disco gravado (Chá Dançante, 1956) aqui, eu estava tendo problemas para me adaptar aos trabalhos que havia. Os pianistas que tocavam nas boates tinham de acompanhar cantores populares, tocar um gênero de música que não me agradava. Até que um dia resolvi procurar um lugar na América. Pensei que iria encontrar o jazz, mas não, encontrei foi uma moda de música latina, cha-cha-cha e tal. Eram famosas as mambo nigths no Palladium, de Nova Iorque, frequentadas por artistas de cinema.

Ficou decepcionado?
No início, fiquei um pouco:“Ué, pensei que aqui era a terra do jazz”. É o mesmo que acontece aqui no Brasil. O cara vem de fora pensando “vou chegar na terra da bossa nova e do samba”, e chega aqui não tem bossa nova, nem samba, tem um rock e outros tipos de músicas populares tocando no rádio o tempo todo.

Como você conheceu Caetano e Gil, que seriam dois de seus primeiros parceiros?
Inicialmente, conheci pelos discos que a turma da Varig levava [do Brasil para os Estados Unidos]. Quem tinha um disco daqueles telefonava pro outro e fazíamos reuniões de brasileiros para ouvi-los. Tinha Gil, Gal, Caetano, Bethânia, Chico, Edu, Milton. Enfim, tomei conhecimento deles lá, em gravações, eram novos pra mim. Em 1973, pouco depois da volta ao Brasil, fui convidado para fazer a direção musical do show da Gal Costa, Cantar, e aí conheci os outros baianos – eles andam em grupo, né? Você encontra um baiano e tem três ou quatro [risos]. Conheci a turma toda, o que resultou em letra pra cá, letra pra lá. Gil fez um monte de letras pra mim, Caetano fez outras tantas…

Suas primeiras músicas com letras não são dessa época? Você considera que as letras ajudaram a torná-lo mais conhecido?
Até voltar ao Brasil, eu só fazia música instrumental. Na verdade, havia uma única letra perdida, Minha Saudade, que João Gilberto fez em 1950. Mas quando fui gravar meu disco depois da volta [Quem é Quem, 1973], o Agostinho dos Santos me aconselhou a colocar letras. Aí tive letras de Paulo César Pinheiro, Marcos Valle, meu irmão Lysias Ênio. Eram letras para músicas que já existiam, assim como nas parcerias com Caetano e Gil. Só assim passei a ser considerado um autor, antes não tinha a ideia de que a letra, digamos assim, fosse um bom negócio.

As letras representariam um “antes e depois” em sua carreira?
Acho que sim, pois apareceram músicas que o povo começou a cantar, como Simples Carinho, A Paz, Lugar Comum, Naquela Estação

Nasci para Bailar, música feita em parceria com Paulo André Barata, tocou muito no rádio, gravada por Nara Leão. Dizem que tem uma história curiosa.
É de uma época em que a gente andava meio sem grana, e o Paulo André disse assim: “Tenho uma ideia. Vamos lá na gravadora. Tu não fala nada, deixa que eu falo”. Chegamos na Polygram e o cara nos saudou: “Vocês dois por aqui, que maravilha, vem coisa por aí”. E o Paulo André: “É, temos quatro músicas e queremos um adiantamento”. E o camarada: “Mostrem pra gente então. Tem um violão e um gravador aqui”. Paulo André: “Não, agora não dá, temos um compromisso, só queremos um adiantamento das quatro músicas”. E o cara: “Mas então me dá pelo menos os títulos”. Diz o Paulo André: “Nasci para Bailar. Outra: Pra Que Negar. Outra: Quando Saio do Trabalho. Outra: Quero Sambar”. [risos] Isso é uma estrofe de um samba de carnaval [canta]: “Nasci para bailar/ Pra que negar/ Quando saio do trabalho/ Quero sambar”. O camarada nos deu o adiantamento, saímos contentes da vida, cantando “nasci para bailar” no meio da rua e surgiu a música, com essa euforia do adiantamento sobre o nada. As outras três nunca saíram [risos]. Mas essa deu um bom resultado, virou nome do disco da Nara, fez sucesso.

Então as letras, de certa forma, tiraram você do “gueto” instrumental. E depois de abrir a porta você tem parceiros por todos os lados, Adriana Calcanhotto, Martinho da Vila, Marcelo D2 e Fernanda Takai, entre os mais recentes. Como surge uma parceria? E como você se dá com os jovens?
A música instrumental é meio underground, quase não aparece. E os parceiros são mesmo muitos, mas como surge uma parceria é meio inexplicável. A de Bananeira, por exemplo, surgiu uma noite, na casa da Gal, os baianos todos lá, e o Gil começa a brincar com o som que eu tocava. Ou então alguém traz uma letra de casa, como foi o caso de Caetano com A Rã. A música originalmente se chamava O Sapo, e ele veio com rã, porque seria cantada por Gal. Tenho feito muitas músicas novas com a Joyce também. Gosto dessa variação, compor com pessoas de diferentes destinos. Música não tem idade. Sou muito procurado pelos jovens. Devem achar em mim alguma coisa que interessa a eles. E vou com eles, como vou para os veteranos.

Neste ano, você tem circulado pelo Brasil só com o piano…
Eu nunca tinha usado esse estilo de apresentação. A vantagem dos shows sem acompanhamento é que posso tocar peças que de outra forma não tocaria. Umas valsas minhas, trechos de Debussy e Ravel… Tenho o sonho de gravar um disco com esses arranjos de Ravel e Debussy com orquestra, mas adaptados por mim. Já falei com Jaques Morelenbaum para colaborar e ele achou maravilhoso.

E os Estados Unidos?
Voltei pouquíssimas vezes. E já se passaram 40 anos. Mas, quando encontro por aí alguns músicos mais novos, eles dizem que me conhecem. O pessoal da Diana Krall, por exemplo, veio me cumprimentar; o baterista, Hamilton, me cumprimentou e disse: “Ao conhecer você, tenho a emoção que tive quando conheci Dizzy”.

Ao contrário da maioria dos artistas, que começa a se repetir quando atinge determinado estágio, você parece estar sempre no auge da carreira, como mostram os discos.
Não é bem assim, nos shows tenho de repetir algumas músicas, senão o público fica dizendo “pô, o cara não tocou A Paz, ou não tocou A Rã, não tocou Bananeira”… Daí eu tenho de dar uma chegada lá. Mas sempre jogo alguma coisa nova.

Tem uma música favorita?
Acho que é A Rã. Ou Lugar Comum, que fiz lembrando aquele assobio da canoa…

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