13/07/2011

Afogado em números

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É bem provável que o fato mais significativo para o cinema gaúcho em 2011 seja a publicação de um livro de economia

Por Marcus Mello*

Economia da cultura e cinemaÉ bem provável que o fato mais significativo para o cinema gaúcho em 2011 não seja o lançamento de um filme, a estreia de uma nova série de televisão ou a conquista de um prêmio internacional, mas sim a publicação de um livro de economia. Fruto de uma pesquisa pioneira realizada pelo professor e especialista em economia da cultura Leandro Valiati, o breve ensaio Economia da Cultura e Cinema – Notas Empíricas sobre o Rio Grande do Sul (Editora Terceiro Nome, 110 páginas, R$ 22) reúne dados sobre o mercado cinematográfico local no período compreendido entre 1995 e 2007. Tais dados estão relacionados aos três eixos da cadeia produtiva – oferta, demanda e mercado de trabalho – e a partir de sua análise o pesquisador não apenas apresenta uma radiografia precisa sobre a área, como também sugere estratégias de ação para encarar alguns dos problemas crônicos enfrentados pelos profissionais de cinema aqui no Estado. Um esforço notável de estabelecer indicadores confiáveis, que, como bem define o autor, são imprescindíveis para pavimentar “os caminhos para a constituição de um mercado equilibrado, virtuosamente constituído e sustentável”.

À primeira vista, alguns dos dados levantados pela pesquisa de Valiati podem parecer desesperadores. É triste descobrir, por exemplo, que um filme como Concerto Campestre, de Henrique de Freitas Lima, tenha custado R$ 5,9 milhões e arrecadado apenas R$ 71 mil, ou que entre 1997 e 2007 somente três filmes conseguiram uma arrecadação superior ao seu custo: Houve uma Vez Dois Verões, O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou um Cara, todos de Jorge Furtado. No entanto, o próprio Valiati, que se diz incomodado com a forma depreciativa com que alguns setores vêm usando sua pesquisa para atacar o cinema gaúcho, revela que cada real de recursos públicos investido na produção cinematográfica se transforma, ao colocar em movimento uma ampla cadeia de profissionais, em R$ 1,45 (gerando um ganho de quase 50% sobre o valor inicialmente aportado).

Recheado de gráficos, mapas e tabelas, o livro de Leandro Valiati seguramente não é a melhor opção de leitura para uma fria tarde de sábado no aconchego de uma cabana na serra gaúcha. Mas desde logo se impõe como uma ferramenta básica para qualquer um que queira enfrentar o desafio de encarar o cinema como profissão. O que justifica o espanto do colunista (e do próprio autor) diante da ausência de profissionais da área por ocasião de seu evento de lançamento, realizado no último mês de março. Entre a plateia atenta que lotou o auditório da Livraria Cultura para assistir à palestra de Valiati, apenas o diretor Jorge Furtado e a produtora Nora Goulart eram ligados ao mercado cinematográfico – no lançamento, em São Paulo, na Casa das Rosas, havia, segundo relato de Valiati ao colunista, cerca de 50 cineastas e produtores interessados em conhecer sua pesquisa. Este desinteresse manifestado por nossos profissionais talvez explique alguns dos impasses vividos pelo cinema gaúcho nos últimos anos, e cuja deprimente manifestação não vem de hoje. Na APLAUSO 76, em junho de 2006, já havíamos dedicado espaço à contumaz ausência dos profissionais de cinema locais nas salas de exibição e em eventos cinematográficos em geral.

Trabalho de valor inestimável, Economia da Cultura e Cinema – Notas Empíricas sobre o Rio Grande do Sul foi merecidamente contemplado com o I Prêmio SAV para Publicação de Pesquisa em Cinema e Audiovisual, na modalidade Pesquisa Independente. Vale ressaltar, a propósito, a destacada presença do Rio Grande do Sul nesse concurso, que também premiou a pesquisa Entre Lanternas Mágicas e Cinematógrafos – As Origens do Espetáculo Cinematográfico em Porto Alegre 1861–1908, de Alice Dubina Trusz, desta vez na modalidade Tese de Doutorado, e ao qual voltaremos em breve.

*Marcus Mello assina a coluna Cinéfilo na revista APLAUSO
**Texto publicado na APLAUSO 111

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