13/07/2011

O Circo Girassol e o Palco Giratório

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Vida longa a duas das mais importantes atrações cênicas de Porto Alegre

Por Luiz Paulo Vasconcellos*
Circo Girassol (Foto: Divulgação)

O primeiro espetáculo a que assisti dirigido por Dilmar Messias foi A Tragicomédia de Dom Cristovão e da Senhorita Rosita, de Garcia Lorca. Isso em 1974, lá no hoje extinto Clube de Cultura. Era um espetáculo que impressionava pela beleza plástica, com cenários e figurinos maravilhosos de Lídia Richiniti. Nunca esqueci. Afinal, Messias tinha sido meu aluno alguns anos antes, havia trabalhado como ator em dois espetáculos meus – Hamlet, de Shakespeare, e Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues – e sempre perdura um certo orgulho de professor enfrentando um bom aluno que inicia sua carreira.

O último espetáculo de Messias que vi foi uma peça destinada ao público infanto-juvenil, Bonequinha de Pano, texto de Ziraldo, isso em 2004. Portanto, 30 anos depois. Era um excelente espetáculo, e olha que para eu dizer isso é preciso que seja muito bom mesmo, porque teatro para crianças não faz lá muito a minha cabeça. Mas o espetáculo tinha uma direção criativa, segura, uma interpretação irretocável de Luciana Éboli, cenários e figurinos sempre lindos de Daniel Lion. Uma festa para os olhos, ouvidos e imaginação.

Mas o que me leva a escrever esta coluna são os dez anos do Circo Girassol. Depois de uma longa carreira como diretor de espetáculos de teatro, Messias decidiu montar um circo. Um circo com um forte acento teatral, mas de qualquer maneira, um circo.

É importante observar que, durante o período das produções teatrais, o circo, de um modo ou de outro, sempre esteve presente. Os que estavam vivos naquela época hão de lembrar da montagem de Faça-se a Luz para o Esclarecimento do Povo (1978), de Bertolt Brecht, em que Messias intercalou duas pequenas farsas do próprio Brecht – O Filhote do Elefante e Luz nas Trevas – explorando o uso de pernas de pau, palhaços e outros recursos circenses. Ou seja, o circo sempre esteve lá, lírico e poético, até tomar a forma definitiva de um circo.

A questão das técnicas circenses – malabarismos, trapezismo e outros ismos que desafiam a lei da gravidade – foi dominada com a participação de professores da Escola Nacional de Circo e a questão teatral, a “palhaçada”, digamos assim, o elenco já possuía experiência de sobra. Como diz o próprio Messias numa entrevista publicada na internet: “Levei para o circo a experiência do teatro (…) com esta alegria, com este colorido que procuro imprimir nos meus espetáculos (…) essa coisa lúdica e lírica que me acompanha e que está presente no nosso circo”.

Em maio passado, o circo fez dez anos. Para comemorar, foi realizada a Mostra Circo Girassol – dez anos, com um repertório de seis espetáculos apresentados na lona montada no Largo Zumbi dos Palmares. A mostra teve financiamento do Fumproarte e integrou a programação do 6º Festival Palco Giratório Sesc/POA, de que falo mais adiante.

Parabéns a todos, elenco, técnicos e, principalmente, ao idealizador, fundador e fiel mantenedor do Circo Girassol, Dilmar Messias. Vida longa é o que Porto Alegre – orgulhosamente – deseja.

***

O outro tema que gostaria de abordar é a realização já há seis anos do Festival Palco Giratório Sesc. Porto Alegre é uma cidade abençoada, se considerarmos a sequência de festivais que ocorre ano a ano – no inverno o Festival de Inverno, na primavera o Porto Alegre em Cena, no verão o Porto Verão Alegre e no outono o Palco Giratório. Em 2011, na sexta edição, o festival teve 42 espetáculos de 11 estados, dez produções locais e duas de outros países – Japão e França. Além das apresentações formais, inúmeras palestras, debates, cursos e seminários, o que instiga artistas e principalmente o público interessado pelo fato teatral.

Esta é justamente a melhor contribuição que os festivais podem oferecer – a possibilidade de aperfeiçoamento do público, o estímulo ao pensamento e à sensibilidade, o desafio a uma melhor e mais ampla visão de mundo. Assim, talvez, superemos a banalização que de uns anos pra cá vem tomando conta dos nossos palcos. Parabéns ao Sesc, aos curadores, administradores, artistas e, sobretudo, ao público. Vida longa é o que o teatro brasileiro – orgulhosamente – deseja.

*Luiz Paulo Vasconcellos assina a coluna Palco na revista APLAUSO

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