13/08/2011

Cinco décadas bem vividas

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Criado em 1961 para dar mais vida à produção artística em Porto Alegre, o Atelier Livre comemora 50 anos com um calendário recheado de atividades

Por José Weis

Foto: Nathalia Grün

Mural feito por diversos artistas para as comemorações dos 50 anos

Em 2008, do alto de seus 89 anos, Xico Stockinger concedeu a APLAUSO uma de suas últimas entrevistas. Entre cactos, ferramentas, cachorros e sua própria arte, Xico resgatou na memória a gênese do Atelier Livre: “Foi fundado por mim e pelo Scarinci [Carlos] em 1960… não me lembro mais quando, em 62, me parece… Havia os bondes e aquele troço redondo, em cima, era lá o negócio [a sede do Atelier]. Depois, nós mudamos para o Mercado, mas daí entrou a revolução… naquela época, eu era diretor do Margs e do Atelier Livre. E eu não era propriamente do lado deles [governo] e larguei tudo. Pedi demissão e fiquei só às minhas custas, até hoje”. A verve de Xico tinha a mesma força que empregava para fazer suas grandes esculturas. Havia um ligeiro equívoco nas datas – mas nada comprometedor.

Em 2011, o Atelier Livre está completando 50 anos de vida. Sua história começou em Porto Alegre, nos últimos meses de 1960, depois que um grupo de artistas reunidos na sede do Teatro Equipe resolveu agitar o então cenário cultural da cidade. Entre os agitadores estavam Erico Verissimo, Aldo Obino, Iberê Camargo e Xico Stockinger. Em dezembro daquele ano, o próprio Iberê realizaria uma oficina de pintura na então Galeria Municipal, cravada nos altos do Abrigo dos Bondes, na Praça XV, onde eram apresentadas exposições com certa regularidade. Quinze jovens artistas se inscreveram na oficina. As trocas, as ideias e a criatividade efervesciam. Falavam tanto em arte livre num ateliê que o nome acabou pegando: Atelier Livre. Houve repercussão na imprensa e a administração municipal cedeu o espaço do Abrigo dos Bondes para sediar a escola. “Naquele tempo, a burocracia da prefeitura tinha mais agilidade”, diz Ana Luz Pettini, coordenadora do Projeto Atelier Livre 50 Anos. Dois anos depois, sob a direção de Danúbio Gonçalves, o Atelier Livre mudou-se para o Mercado Público. Entre outros motivos, como maior espaço físico, estava o fato de que uma prensa de gravuras, que havia sido emprestada por Xico Stockinger, não teria passado pela escada do Abrigo dos Bondes. A hospedagem no Mercado Público rendeu momentos marcantes, como a oficina ministrada por Marcelo Grassman, que introduziu a litogravura em Porto Alegre.

Foto: Nathalia Grün

Dez anos depois, começaram a correr boatos de que o Mercado Público poderia ser demolido. Nova mudança para o Atelier Livre, desta vez para uma casa na Rua Lopo Gonçalves, onde permaneceu de 1972 a 1978. De lá, saiu para sua casa definitiva, na esquina das avenidas Erico Verissimo com Ipiranga. Foi especialmente a partir dali que fortaleceu sua relação com a cidade. Uma relação visceral, sobretudo no que diz respeito à produção artística, tanto da academia – isto é, o Instituto de Artes da UFRGS – como da periferia. Nele, artistas, admiradores e curiosos encontraram um lugar para aprender e se expressar através da arte. Hoje, o Atelier Livre comemora seus 50 anos de diversas maneiras. Ana Pettini abriu espaço em sua conturbada agenda para falar com a reportagem de APLAUSO.

O trabalho que ela desenvolve atualmente seguirá até o dia 10 de abril de 2012, quando chega ao fim o ciclo de um ano de atividades do aniversário. No mesmo 10 de abril, 50 anos atrás, Xico Stockinger foi nomeado primeiro diretor da instituição. Em 2011, o lançamento do calendário foi marcado pela mostra Artistas e Professores do Atelier Livre, no Paço Municipal, com imagens produzidas pelos primeiros mestres da instituição. Depois, foi a vez de uma mostra não oficial, realizada pelo Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), abrindo um generoso espaço para a exposição Do Atelier ao Cubo Branco, na qual foram reunidos trabalhos de 64 artistas com passagem pelo Atelier Livre – tanto ministrando oficinas quanto como alunos.

São, de fato, muitas atividades programadas para registrar estas cinco décadas. Em junho foi inaugurada a exposição 72 Horas Atelier Livre – depois que artistas e professores produziram ininterruptamente ao longo de três dias sem sair da sede da escola. Outra realização comemorativa foi o projeto Artista Visitante, realizado no primeiro semestre deste ano, com a vinda da artista Nydia Negromonte, de Belo Horizonte, cuja oficina resultou na mostra Lição de Coisas.

Foto: Arquivo Atelier Livre

Na imagem, de 1991, aparecem funcionários e professores que haviam passado pela escola até então

Ana Pettini revela que mais ações estão a caminho. “A cidade de Porto Alegre deve muito ao Atelier, que a colocou no mapa das artes plásticas”, defende ela, que vem fazendo um detalhado levantamento histórico, recheado com documentos, coleções de jornais e materiais de egressos do Atelier Livre. O objetivo é preparar um livro sobre os 50 anos do Atelier, previsto para ser lançado em 2012. Mergulhada em pesquisas, Ana descobriu, entre outras coisas, que em 1962 artistas e alunos foram responsáveis pela decoração do carnaval de rua de Porto Alegre. A programação comemorativa conta também com a sinalização dos quatro lugares que serviram de sede para o Atelier e com uma intervenção no Centro Municipal de Cultura, seu endereço atual, que ganhará o revestimento de uma grande peça feita por vários artistas convidados. Além disso, haverá o tradicional Festival de Arte de Porto Alegre, marcado para outubro.

O diretor do Margs, Gaudêncio Fidelis, deu os passos iniciais de sua formação artística no Atelier Livre: “Foi o meu primeiro contato mais direto com o aprendizado da arte”. Gaudêncio ressalta a importância do Atelier Livre no sentido de oportunizar um espaço onde se pode não apenas viver a experiência do processo artístico, mas também seu ambiente e seus meandros. Outro ponto salientado por ele são os festivais de arte. “Há uma importância no contexto brasileiro, e não só local, porque os festivais representam um núcleo muito forte de intercâmbio de artistas de outras regiões, no sentido de uma produção não acadêmica”, avalia. Uma das virtudes do Atelier Livre, para o diretor do Margs, é justamente seu caráter informal. “Trata-se de um núcleo de produção extraordinária, que cumpre um papel de aglutinador dessa produção [não acadêmica]”, resume.

Doutor em História da Arte e curador do Margs, José Francisco Alves faz questão de incluir no currículo a formação inicial no Atelier Livre. Além de ser um dos oito professores que hoje lecionam na instituição, ele coordena editorialmente a publicação As Partes – uma iniciativa do próprio Atelier. Todo esse envolvimento foi fundamental para organizar a exposição feita no Margs, no primeiro semestre. Assim como Ana Pettini, Alves diz que é preciso haver um concurso público para admissão de novos professores. O pedido, feito há mais de quatro anos, ainda não foi atendido pela Prefeitura, que promete publicar um edital de seleção até o fim deste ano.

Energia de mestre

Aos 86 anos, o artista e professor Danúbio Gonçalves esbanja energia e criatividade. Produzindo em seu ateliê, incrustado numa rua tranquila do bairro Petrópolis, entrega a fórmula para tanta disposição: “Como pouco, não fumo e faço exercícios”. Suas obras mais recentes estão espalhadas por Porto Alegre, como os murais que enfeitam a rótula da Carlos Gomes com a Protásio Alves e a estação Mercado do Trensurb. Danúbio foi o segundo diretor do Atelier Livre e aquele que mais tempo permaneceu no cargo. Em sua gestão, a escola migrou do Abrigo dos Bondes para o Mercado Público. “O Xico Stockinger me convidou para trabalhar no Atelier com ele, mas depois ele não pôde continuar, então fiquei sozinho. Daí eu convidei algumas pessoas, como o Clébio Sória, o Paulo Porcella e o Anestor Tavares”, explica.

Foto: Arquivo Atelier Livre

Danúbio Gonçalves, ao centro, com alunos da oficina de litogravura, nos anos 1990

Ao mesmo tempo em que produzia, dirigia o Atelier Livre e lecionava no Instituto de Artes da UFRGS. Até que se desligou da universidade. “Resolvi ficar só com Atelier para ter mais tempo”, explica. Hoje, o mestre fala com ar saudosista dos primeiros anos da instituição. “Todo mundo se conhecia”, diz, lembrando que a escola era menor, fisicamente, o que facilitava o intercâmbio e as conversas entre alunos e professores. Outro lamento é com os meios de produção atuais. Para Danúbio, existe certo abandono das técnicas mais tradicionais, como o desenho, em função da era digital. “As pessoas quase não desenham mais, trabalham em cima da fotografia”, justifica. Apesar de reconhecer o fato de que muitas mudanças vêm para somar, o artista abre parênteses quando o assunto é arte. “Acho que na arte, assim como em todas as profissões, a tradição é muito importante. O erro é uma maneira de aprender. Essas técnicas antigas não vão desaparecer”, estima.

Recentemente, a artista e professora Daisy Viola veio de Santa Maria para dirigir o Atelier Livre. Agora, ela está em seu segundo mandato. “Como escola pública, de ensino de arte para adultos, não se encontra um Atelier Livre como o nosso em cidade nenhuma do mundo”, defende. Para ela, a estrutura atual se assemelha à de uma escola tradicional, mas afirma querer resgatar “a ideia de ateliê”. Mesmo assim, um exemplo recente de que a escola contempla as mais diferentes linguagens foi a equipagem de uma sala com 11 computadores. “Estamos implantando a sistematização dos cursos de Arte Digital”, comenta Daisy Viola. Outra novidade foi a reforma pela qual passou a sede atual, com troca da rede elétrica, substituição de teto e novas pinturas nas paredes. Ao que tudo indica, parece que vem por aí outro prolífico meio século de vida.

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