19/08/2011

Esse guri vai longe

Print Friendly

Aos dez anos de uma tardia carreira humorística, Jair Kobe quer que o seu Guri de Uruguaiana provoque riso em plateias fora do Rio Grande do Sul

Por Daniel Cassol
Foto: Ricardo Lacerda

Encontrar Jair Kobe é fácil. O número de telefone celular que consta na página do humorista é atendido pelo próprio Jair, que tenta, na medida do possível, manter controle sobre sua carreira. Marcar uma conversa, porém, já não é tão simples. Não que ele não esteja sempre disposto a acrescentar mais um compromisso na sua lista de tarefas. Mas a agenda apertada de espetáculos, participações em meios de comunicação e compromissos variados demandou uma pequena engenharia envolvendo sua produção, a empresa de assessoria de imprensa e ele mesmo. A entrevista, que deveria acontecer no escritório da Avenida Cristóvão Colombo, em Porto Alegre, mudou em cima da hora para o Chalé da Praça XV, no centro, onde o Guri de Uruguaiana havia passado a manhã participando de um programa de rádio.

Na mesma semana em que APLAUSO conversou com o humorista, ele fez coisas como organizar uma exposição de fotos sobre a temporada do Guri de Uruguaiana no Theatro São Pedro e defender um pênalti cobrado pelo prefeito José Fortunati durante um programa de televisão transmitido do Largo Glênio Peres. Além, é claro, de arranjar tempo para os espetáculos, cada dia mais numerosos. “Pelo menos hoje eu já consigo pedir para a produção bloquear minha agenda por alguns dias para poder fazer alguma coisa com minha família”, comenta Jair. Entre apresentações públicas e participações em eventos privados, são cerca de 200 espetáculos do Guri de Uruguaiana por ano, incluindo o sucesso de público que foram as duas temporadas no São Pedro, em abril e junho, que chegaram a ter três sessões seguidas, sempre lotadas. Fora dos palcos, Jair Kobe faz o que sempre fez em sua vida de músico, empresário, fotógrafo e até animador de concurso de cães: ter ideias – e executá-las.

“Ele trabalha muito. Levanta às 5h da manhã pra fazer o ‘Bom Dia Rio Grande’, o que for. Esse grande mérito ele tem. Nada acontece por acaso”, diz Flávio Bicca, que dirigiu Jair Kobe em sua estreia como humorista, há dez anos, no Teatro do Ipê, com o espetáculo Seriamente Cômico, que entrou em cartaz no Porto Verão Alegre de 2001. A carreira de humorista de Jair Kobe, nascido em Porto Alegre, em 1959, começou tardiamente, depois dos 40 anos. Antes de estrear no teatro, em 2001, com seus quatro personagens – o cantor brega Maurício Ronaldo, o mágico Sergay Baitabichóvsky, o Baiano e o Guri de Uruguaiana –, ele já havia tentado de tudo. Entre o fim dos anos 1970 e início dos 1980, cursou as faculdades de Análise de Sistemas na PUC, Música e Ciências Contábeis na UFRGS. As três sem chegar ao fim. Em 1982, começou a comprar roupas em Santa Catarina e no Rio de Janeiro para revender em Porto Alegre. Teve lojas de confecção e, em 1995, abriu um restaurante em Capão da Canoa. Nesse meio tempo, passou a trabalhar também com uma agência de publicidade e desempenhava funções inusitadas, como apresentador de concursos de cães. Também se profissionalizou fotógrafo e registrou em imagens o Festival Internacional de Cães em Milão, na Itália, em 2000. “Fiz muita coisa e tenho orgulho do que fiz. Mas é complicado ser empresário, ter negócio, gerenciar aluguel, funcionário”, comenta o hoje humorista, que nunca abandonou a música e o violão, instrumento que aprendeu a tocar aos 16 anos. Nos anos 1970, Jair integrou o grupo Gaiola e participou da gravação de um disco com o grupo Rebenque, em 1978, ao lado de outras bandas que faziam parte do efervescente cenário musical de Porto Alegre.

Foto: Celso ChitolinaNa época, a experiência musical mais importante foi com o grupo vocal Canto Livre, fundado em 1981 por Jair Kobe, Fernando Cardoso e jovens universitários de Porto Alegre. Juntos, eles engrossaram o caldo do movimento nativista que, de uma maneira ou de outra, contestou a rigidez dos preceitos tradicionalistas. Com roupagem musical moderna para temas regionais, o Canto Livre levou ao Festival dos Festivais da Rede Globo, no Rio de Janeiro, a música Esse Gaiteiro, que tinha como atração um jovem acordeonista de nome Renato Borghetti. “Como essa característica de empresário é querer resolver, eu organizava ensaio, fazia tudo, além de ser compositor”, lembra. Letrista e “mentor” do Canto Livre, Sérgio Napp vê no Jair humorista características do músico que pisava no palco no início dos anos 1980. “O Jair era muito extrovertido, brincalhão com a turma e no palco. Ele e o Fernando tinham todo um carisma com o público. Evidentemente que isso se transferiu para o Guri de Uruguaiana”, diz Napp. “O que eu não imaginava quando fui assistir ao primeiro show era que ele tivesse tanta segurança de palco. A gente reconhece o Jair daquele tempo, mas hoje eu o considero um dos melhores humoristas que nós temos”, completa.

O Canto Livre era uma coisa, o Guri de Uruguaiana é completamente outra. Mas Jair Kobe vê um elo entre os dois trabalhos mais importantes de sua carreira artística, a saber, uma espécie de projeto político involuntário que tenta falar do regionalismo gaúcho de uma maneira mais leve e despachada. Assim, quebra a barreira cultural com o resto do Brasil muitas vezes imposta por uma certa arrogância do gauchismo ortodoxo. “O Guri de Uruguaiana é o projeto do Canto Livre. Éramos jovens universitários, todos de Porto Alegre, cantando música nativista. Cantávamos as músicas pela sonoridade, pela beleza, e vestíamos uma roupagem mais de vanguarda, com arranjos que fugiam dessa impostação do gaúcho. E o Guri de Uruguaiana desmistifica essa coisa do gaúcho macho. Ele é um anti-herói, bonachão, bacana, não é veado, mas fala que a mulher dele é feia, que sai de casa e o vizinho fica tomando conta dela. Ele não está preocupado em ‘se achar’, maneira como o gaúcho é visto no Brasil inteiro”, avalia Jair Kobe.

A verdade é que o Guri de Uruguaiana foi se ajeitando no andar da carreta. Dono de restaurante e metido com publicidade, Jair ensaiava alguns esquetes humorísticos em apresentações amadoras. Com a ajuda de amigos, transformou a brincadeira que vinha crescendo no Seriamente Cômico, de 2001. “Eu não tive um trabalho de laboratório, de pensar em situações. Eu fui criando”, conta. O personagem nasceu de uma paródia com a música Guri, vencedora da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana em 1983. Jair queria um nome composto, então lascou Guri de Uruguaiana. Certa feita, lá por 2003, em um show em Alegrete, aproveitou o sucesso da música Ragatanga, do provavelmente já extinto grupo jovem Rouge, e fez uma coreografia em cima da melodia, usando a letra do Canto Alegretense, de Nico e Bagre Fagundes. “Não tinha pretensão de virar o mote. Inventei de fazer uma brincadeira com esse ritmo e foi muito legal”, lembra. Jair já participava da previsão do tempo com toques de humor no Bom Dia Rio Grande, da RBS, então comandada pelo hoje deputado estadual Paulo Borges. “Quando eu comecei a modificar a previsão do tempo, me indicaram o Jair como um artista que teria vários personagens. Um dos que mais se destacavam e tinham mais retorno do público era o Guri de Uruguaiana”, conta Paulo Borges. Na semana seguinte à apresentação em Alegrete, Jair Kobe fez a coreografia do Canto Alegretense no ritmo Ragatanga. A pedido do público, teve de ser repetido várias vezes. “Foi um sucesso bárbaro, tive de repetir no outro dia. Eu parti para esse lado, de brincar e fazer paródias da música”, comenta. Com a exposição, Jair começou a criar o entorno do Guri de Uruguaiana, da parceria com Licurgo, o gaúcho “emo” interpretado por Luiz Antonio Dau de Souza, à relação com a esposa Sílvia Helena, com quem, na vida real, é casado desde 1986 e tem duas filhas. “A Sílvia Helena é um pouco diferente daquilo que eu pinto”, brinca Jair, que nos palcos diz que a mulher tem problema de gordura localizada: localizada no corpo todo.

O Guri de Uruguaiana ganhou um espetáculo próprio em 2008 e, até agora, todas as apresentações lotam. “Mas que falta de opção!”, costuma bradar o comediante ao ver a plateia repleta de gente. O show, que no início Jair levava praticamente sozinho para cidades do interior, hoje não se banca se não for realizado em um local com capacidade para no mínimo 800 pessoas. Além dos cinco artistas em cima do palco, outras oito pessoas compõem a equipe – além dos músicos regionais convidados para cada apresentação. O contato com a música, aliás, é constante: nos shows pelo Brasil, Jair é acompanhado por Daniel Torres e faz costado para o violão, tocando instrumentos como pandeiro e cajón. “É uma forma de mostrar meu lado musical no show do Guri de Uruguaiana”, ressalta ele, que qualifica seu espetáculo como uma “comédia musical” e diz que entre os projetos futuros está a ideia de lançar um disco de músicas tocadas à paisana. No meio artístico, quem o conhece fala com contentamento de como o humorista merece a fama alcançada. “Tem duas coisas que garantem o sucesso. Uma é o trabalho exaustivo e a outra são as paródias em cima da falta do jogo de cintura do gaúcho. Em função do tema, essa identificação é muito forte”, comenta Flávio Bicca.

“O sucesso do Guri se deve a vários motivos, mas principalmente ao grande talento do Jair. É um grande músico e se revelou um grande humorista. As pessoas podem achar um fenômeno, mas esse rapaz vem se preparando para isso. Como artista, ele se preparou para enfrentar a plateia com qualidade”, afirma o ator Zé Victor Castiel, um dos responsáveis por levar o primeiro espetáculo de Jair Kobe ao Porto Verão Alegre. A simpatia do público com o personagem se reflete também na internet, muito bem utilizada por Jair Kobe, principalmente nas paródias que estouram no YouTube a cada novo lançamento. Elas começaram com os peões e prendas fantasmagóricos dançando o Canto Alegretense ao som de Thriller, de Michael Jackson, e apareceram neste ano com uma hilariante versão de YMCA, do Village People. Ano passado, a versão de Help, dos Beatles, teve 783 mil visualizações só na conta oficial de Jair Kobe no YouTube. Os clipes repercutem tanto que os humoristas Rafinha Bastos e Diogo Portugal, especializados em stand up comedy, pediram para participar de um próximo vídeo – Jair está em dúvida entre uma clássica do Queen e outra do BeeGees. Outros compromissos na apertada lista de tarefas do humorista, engordada por sua própria capacidade de inventar produtos e projetos, são lançar um DVD para crianças e um programa de rádio, ainda em fase de experimentação.

Foto: Tiago Trindade

Hits instantâneos: As muitas versões criadas para o Canto Alegretense são pontos altos dos espetáculos. Algumas ganham até clipes, sucesso no YouTube, como a de YMCA, do Village People

Aos dez anos de carreira e lotando teatros, clubes comerciais, salões paroquiais e festas em qualquer canto do interior gaúcho, o Guri de Uruguaiana começa a dar passos mais consistentes rumo a outras plateias e Estados menos familiarizados com o seu “bagualismo”. Em Santa Catarina e no Paraná, as participações já são frequentes. No início de junho, Jair fez uma apresentação em Brasília, durante uma exposição sobre o Rio Grande do Sul. “A expectativa das pessoas em Brasília, goianos, paraibanos, foi um troço. Gente morando lá no nordeste e que tinha o DVD”, conta. Em julho, a convite do humorista paranaense Diogo Portugal, o Guri de Uruguaiana fez duas participações, em Curitiba e em São Paulo. E aguarda, não sem ansiedade, a resposta dos redatores do Zorra Total, da Rede Globo, para a criação de um quadro próprio. Jair foi convidado a fazer uma participação no programa, mas não gostou da proposta, que apresentava um esquete baseado na manjada piada do gaúcho gay. “Passei pra eles que essa piadinha não dá mais certo em lugar nenhum. Deu o que tinha de dar. Eu tive de ir para o Rio de Janeiro para falar isso e fiquei feliz, porque acho que convenci os caras de que essa piada não rende mais”, comenta.

Para o humorista, o deboche surgiu como um “contraveneno” dos humoristas do centro do país contra o machismo gaudério. E a maneira de quebrar essa barreira seria apresentar ninguém mais e ninguém menos que o bonachão Guri de Uruguaiana, capaz de rir do bairrismo, da petulância e demais idiossincrasias do gaúcho. “Se eu conseguir levar o personagem como ele é para o Brasil inteiro, vai ser uma vitória”, reflete. Pois é nesse compasso acelerado que Jair Kobe completa dez anos de humor. Num eventual acerto com o programa da Globo, os causos do Guri de Uruguaiana iriam se espraiar Brasil afora – para usar uma expressão de outro bigodudo famoso. “Se me chamarem, muda tudo, começam a ter shows no Brasil inteiro. É complicado dizer o que o Guri vai estar fazendo daqui a um ano”, finaliza. Como diz um dos bordões do Guri de Uruguaiana: “Só se fala em outra coisa”.

Palco para todos

Com uma mala de garupa no ombro, cuia de chimarrão extravagante e trejeitos característicos, o Guri de Uruguaiana desembarcou no histórico Theatro São Pedro, em abril deste ano – e voltou à tona em junho. Foi um dos grandes sucessos de público da casa em 2011. Nas três semanas em que esteve em cartaz, em abril, o espetáculo arrastou cerca de 12 mil pessoas, mais do que o também popular Tangos & Tragédias atrai em uma temporada, segundo a diretora da casa, Eva Sopher. Aos sábados, Jair Kobe chegava a realizar três apresentações em sequência. Todas lotadas.

Eis que surge a pergunta inevitável: cabe ao conceituado Theatro São Pedro acolher um show de humor ligeiro, leve e por vezes jocoso? A própria Eva Sopher responde, sem hesitar. “Nunca fizemos diferença. Para nós, não existe popular ou não. Nossa casa é pública e democrática. O que interessa é que seja bom e não baixe o nível”, avalia. O crítico de teatro e professor Antonio Hohlfeldt compartilha a mesma opinião. “O São Pedro é um espaço público e não pode ter preconceito. O espetáculo tem qualidade, dentro do que se propõe, e não vejo nenhum problema”, diz. As piadas e paródias do Guri de Uruguaiana arrastam pequenas multidões em cada espaço em que o espetáculo é realizado, ao passo que o teatro mais culto, sério e reflexivo não costuma ter a mesma sorte.

A aparente oposição é rechaçada pela própria classe teatral, que numa síntese diz praticamente em uma só voz: há palcos para todos e é bom que seja assim. “Não acho incompatível o sucesso comercial e artístico, mas não é a mesma coisa. Nem todo sucesso comercial tem respaldo, e muitas vezes um grande trabalho artístico não tem êxito de público. Isso existe em qualquer lugar do mundo e em qualquer área da cultura”, opina Luciano Alabarse, diretor teatral e coordenador do Porto Alegre Em Cena. “Desde que a gente saiba o que está fazendo e faça com sinceridade, que o público tenha todas as possibilidades”, complementa.

Alabarse nunca viu o espetáculo do Guri de Uruguaiana, mas avalia como positivo o sucesso de público conquistado por Jair Kobe. Para o diretor, a convivência entre formas de arte distintas é um sinal de cosmopolitismo. “Em qualquer lugar do mundo, vemos essas propostas artísticas convivendo. O que não acho correto é que tudo seja nivelado como igual. Se alguém não quer, procure o que agrada”, pondera. Assim como Alabarse, Luiz Paulo Vasconcellos, diretor de teatro e colunista de APLAUSO, também nunca assistiu a uma apresentação do Guri de Uruguaiana, mas acredita que a pluralidade de expressões culturais é própria de uma metrópole. “O que caracteriza uma cultura civilizada, uma metrópole, é a pluralidade. Seria muito chato se só houvesse espetáculos cultos e artísticos. Tem de ter de tudo, mas me reservo o direito de não assistir”, afirma.

Para Vasconcellos, existe uma discussão anterior. Ele cita uma frase do ator e diretor teatral francês Jean Vilar, falecido em 1971: “Fazer uma boa sociedade e depois, talvez, façamos um bom teatro”. Para o diretor e ator, há maus espetáculos e mau público, assim como há bons espetáculos e bom público – cada um contribuindo para a sobrevivência do outro. “Acho que a diferença entre o sentido das palavras ‘divertir’ e ‘distrair’ reforça a questão. Divertir significa ver de forma diferente, enquanto distrair significa deixar de ver. Há quem vá ao teatro para se divertir, há quem vá para se distrair. Há quem faça teatro como quem escreve poesia, por uma necessidade imperiosa de se expressar, de ver e pensar o mundo. Há quem faça para ganhar dinheiro. Cada um na sua. O resultado disso é uma comunidade culturalmente evoluída: tem de ter de tudo”, completa.

Jair Kobe vê um elo entre o Canto Livre e o Guri: ambos são uma espécie de projeto político involuntário, que tenta falar do regionalismo gaúcho de uma maneira mais leve e despachada

O ator e diretor Zé Adão Barbosa relembra que montou um besteirol nos anos 1980: “Fomos crucificados, houve manifestações de que não tínhamos o direito de usar os espaços. Mas o teatro é feito de drama e comédia. E, na comédia, o que importa é fazer o público rir”. Ele afirma que fazer rir não é para qualquer um. “Tenho o maior respeito pelos clowns. Não existe formação para comediante. O ator tem de ser engraçado. O comediante tem de ter timing, uma visão de mundo divertida, uma forma de se comportar engraçada”, analisa. Zé Victor Castiel, em cartaz com a comédia Homens de Perto 2, concorda: “Vai fazer rir para ver se é fácil”.

Um dos idealizadores do Porto Verão Alegre, Castiel festeja a tendência crescente de espetáculos teatrais profissionalizados, capazes de gerar um mercado para a área. “De uns anos para cá, foi se formando e quase se consolidando um mercado de entretenimento de artes cênicas que não tem mais volta. Muita gente não estava preparada para figurar dentro de um mercado que pressupõe profissionalismo. Ele nos retira a mania que tínhamos 30 anos atrás de berrar para o mundo que ele não nos entendia”, critica. Hique Gómez, que há mais de 25 anos faz o Tangos & Tragédias ao lado de Nico Nicolaiewsky, já participou do espetáculo Guri de Uruguaiana como músico convidado. E defende: “Já vai longe o tempo em que o pessoal tinha dificuldade de ir ao teatro assistir a um trabalho produzido aqui. Era difícil os artistas daqui decolarem dessa forma, com uma temporada tão bem-sucedida. Acho bacana os trabalhos, os mercados se estabelecendo, os artistas podendo alavancar suas carreiras”.

Ativista cultural?

“Flor de tuna, camoatim de mel campeiro. Pedra moura das quebradas do Inhanduí.” “Como uma letra dessas não é cantada e decantada em todo o Brasil?”, questiona-se, ironicamente, o Guri de Uruguaiana a certa altura de sua apresentação – engrossando o caldo da velha discussão sobre os limites do regionalismo gaúcho. Do ponto de vista pessoal, é preciso dizer, a brincadeira com o Canto Alegretense não gerou maiores problemas com os autores da música, Bagre e Nico Fagundes, de quem Jair Kobe é amigo. “Se não gostássemos dele, poderíamos criar qualquer tipo de problema, inventar alguma milonga [problema]. Mas nos damos bem com ele. O trabalho é importante, ele achou um filão interessante e não tem nada de mais”, afirma Bagre Fagundes.

Na prática, o Guri de Uruguaiana se dedica a fazer rir, basicamente, sem preocupações de levantar nenhuma bandeira estética ou política. Mas a “tese” que ele diz estar desenvolvendo sobre as razões da música gaúcha não se expandir para o resto do Brasil parece revelar o mesmo Jair Kobe que, com o Canto Livre, tentou dar nova roupagem às temáticas regionais. Para o músico Ernesto Fagundes, o problema estaria mais centrado num certo problema de autoestima dos gaúchos. Cada região do Brasil tem seu vocabulário, e Luiz Gonzaga cantava “só deixo o meu cariri no último pau de arara”, lembra Ernesto. “O preconceito é mais interno, entre alguns formadores de opinião. Acho que esse pessoal tem medo de ser considerado careta por ser regional”, diz. Para Zé Adão Barbosa, o gaúcho tem certa tendência de minimizar a importância de seus próprios personagens. “É uma coisa de baixa autoestima. Sempre que falarmos da gente com humor saudável, acho ótimo”, assegura.

De opinião semelhante, o crítico teatral Antonio Hohlfeldt exemplifica ao lembrar que “o nordeste inteiro aposta nesse tipo de investimento e nós, no Rio Grande do Sul, ficamos com preconceitos lamentáveis”. De olho em plateias não gaúchas, Jair Kobe acredita que seu espetáculo pode muito bem fazer rir públicos menos familiarizados com particularidades sulinas. Para isso, nas apresentações já realizadas em outros Estados, carrega menos nas piadas internas. “É perfeitamente possível. Ele é um tipo rico, remete a coisas ricas. A questão é fazer bem feito, e o Jair tem todas as condições de fazer isso”, avalia Castiel. Já Hique Gomez não se arrisca a dizer se o Guri de Uruguaiana poderá repetir a trajetória do Tangos & Tragédias. “Eu não posso fazer uma previsão, mas ele tem tudo para desenvolver. Administrar uma carreira longa é um desafio”, analisa. Apesar de ver diferenças entre os dois espetáculos – o Tangos é um musical com comédia, e o Guri, uma comédia com músicas –, Hique lembra que os exageros bairristas da Sbórnia, uma pequena representação do Rio Grande do Sul, são a prova de que a autopiada é um caminho saudável e prolífico a se seguir.

APLAUSO consultou o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) sobre o assunto. Via assessoria de imprensa, o presidente Erival Bertolini enviou uma nota. “O MTG tem como finalidade a preservação da tradição gaúcha, seus usos e costumes. O espetáculo Guri de Uruguaiana como produto cultural para o entretenimento tem um finalidade totalmente distinta. Cada um tem seus públicos e os dois devem ser respeitados”, diz um trecho do texto. No palco, o Guri de Uruguaiana se diz viciado em erva – “erva-mate, moída da grossa”. Não se incomoda em relatar que mora na zona, “a zona rural de Uruguaiana”, e que um vizinho fica cuidando da esposa Sílvia Helena quando ele sai de viagem. Na dança da chula, recomenda ao aprendiz que ao final do sapateado faça “cara de macho”, ao mesmo tempo em que requebra o corpo desajeitadamente, desenvolvendo coreografias ao lado de Licurgo, o gaúcho “emo”.

Quem vibra com isso tudo é ninguém menos que Paixão Côrtes, um dos maiores símbolos do gauchismo. “Ele tem qualidades artísticas indiscutíveis, um excelente posicionamento no palco e domínio da música. Pega manifestações universais e coloca temáticas regionais de maneira inteligente e despachada, e isso não é fácil”, comenta o folclorista. Para Paixão, os exageros do Guri de Uruguaiana e até mesmo o deboche com aspectos do gauchismo tradicional são elementos que contribuem para desmistificar a figura idealizada do gaúcho forjada nos CTGs. “Trata-se de uma expressão regional gauchesca, com acentuações graciosas que identificam o regionalismo, sem afetar. Ele faz um regionalismo autêntico, não faccioso ou hipotético. Todos os exageros regionais são feitos com muita propriedade. O que estava acontecendo é que era triste querer fazer do gaúcho uma figura épica, tão somente revolucionária, como se o galpão não fosse a alma do sentimento da terra. E o Jair reproduz exatamente isso, sem exagerar o falso tradicionalismo que anda por aí, campeando pelos centros de tradições”, sustenta.

Jair Kobe: "O Guri de Uruguaiana desmistifica essa coisa do gaúcho macho. Ele é um anti-herói, bonachão, bacana".

Pragmático e feliz com os rumos de sua carreira, o humorista evita entrar de sola na discussão. “É uma briga complicada, que não é muito a área do Guri de Uruguaiana”, esquiva-se. Apesar de seu personagem despertar reações opostas entre representantes do regionalismo, ele considera que não deve se posicionar. “Se eu conseguir levar ao Brasil inteiro alguma coisa da cultura do gaúcho, levar esse gaúcho que não é necessariamente machão, desmistificar um pouco isso e ficar mais querido em relação ao Brasil… e o Guri está conseguindo”, sentencia Jair Kobe.

Deixe seu comentário

*campos obrigatórios

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>