13/10/2011

Da tragédia à obsessão

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Amor sem fim, de Ian McEwan, tem edição revisitada da Companhia das LetrasPor Bernardo Moraes Bueno

Amor sem fimPublicado originalmente na Inglaterra, em 1997, e no Brasil, em 1999, o livro de Ian McEwan ganhou uma edição revisitada da Companhia das Letras, no fim de março, contando com nova capa e novo título: Amor para Sempre passa a se chamar Amor sem Fim.

A mudança sugere a dificuldade para traduzir o título original: Enduring Love literalmente seria “amor persistente” que, embora mais fiel à história, não é nada literário. Entre uma edição e outra, o livro foi adaptado para o cinema, em 2004, com Daniel Craig (o mais recente James Bond) no papel principal. A nova edição herda do filme a mudança da cor do balão na capa – na história, ele é cinza, e, agora, vermelho (uma oportunidade perdida por McEwan: além de ser uma cor mais forte, o formato de um balão vermelho poderia facilmente lembrar o de um coração).

O romance conta a história de Joe Rose, escritor de alguma fama, que publica artigos para revistas no estilo Superinteressante ou Scientific American, traduzindo conceitos científicos complexos para um público mais abrangente. Doutor em Física, Joe pertence a um mundo completamente diferente de sua companheira, a bela acadêmica literária Clarissa Mellon, especialista na obra de John Keats, um dos mais famosos poetas românticos ingleses.

A cena de abertura é em igual medida forte e bizarra: enquanto fazem um piquenique em uma idílica região rural, nas cercanias de Londres, Joe e Clarissa testemunham um acidente envolvendo um balão descontrolado, que tem um menino preso dentro do cesto e seu avô tentando aterrissar. Junto com outros homens que estavam no local, Joe se envolve em uma desorganizada operação de salvamento, mas a total falta de organização e cooperação entre eles resulta em tragédia.

Ainda chocado, Joe tem seu primeiro encontro com Jed Parry, rapaz que se torna imediatamente obcecado e convencido de seu amor pelo protagonista. Jed passa horas em frente à casa de Joe, envia cartas emocionadas descrevendo mensagens secretas que o escritor deixa nas folhagens em que toca; e fala sobre seu dever de salvar Joe de sua fúria científica contra Deus. A guinada na história, do acidente com o balão para o amor de Jed, é tão inesperada e estranha quanto a cena inicial. Sua obsessão força os limites da sanidade de Joe e impõe um fardo sobre seu casamento. Quando nem Clarissa nem a polícia acreditam que Jed é potencialmente perigoso, Joe precisa lidar com a situação sozinho – sem saber os extremos a que irá chegar.

McEwan lida muito bem com a subjetividade das personagens e as nuances de suas percepções, um tema importante no livro – como cada um percebe de uma maneira completamente diferente. O conflito entre visões de mundo é recorrente: a maneira como Joe e Jed são tão opostos; razão e emoção, racionalidade e obsessão, religião e ciência. Habilmente, a palavra “amor” é repetida incontáveis vezes, sempre em situações diferentes, explicitando o contraste entre o amor romântico que Joe nutre por Clarissa no princípio e como ele é corrompido e distorcido conforme o amor obsessivo de Jed cresce em torno de suas vidas.

Não é necessário ressaltar a maestria técnica de McEwan, percebida através de sua atenção aos detalhes, descrições de gestos, diálogos carregados de tensão e domínio do ponto de vista. Se o livro começa devagar, com longas divagações científicas, ele ganha velocidade em direção ao fim, e o que inicialmente parecia um romance literário e racional se encaminha para um thriller com espaço para breves momentos de humor e ação, o que não é um ponto negativo – aliás, o livro só ganha com essa mudança.

Interessante história de obsessão, conflito entre subjetividades e os limites que alguém está disposto a quebrar para proteger o que ama, Amor sem Fim é uma boa leitura, por vezes irregular, mas totalmente satisfatória para aqueles que passam pela erudição excessiva inicial.

*Resenha publicada na APLAUSO 111

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