10/10/2011

Notas de um beletrista

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Debruçado sobre mais de mil páginas, o escritor Carlos Nejar apresenta uma nova versão para História da Literatura Brasileira – livro considerado pelo autor um trabalho em constante andamento

Por Cristiano Bastos
Carlos Nejar

“Não sou pessimista com os leitores”. Quem afirma é o poeta, ficcionista, crítico e tradutor Carlos Nejar, ao ser questionado sobre o baixo índice de leitura dos brasileiros. Uma das razões está na nova edição de História da Literatura Brasileira – Da Carta de Caminha aos Contemporâneos (editado pela LeYa Brasil e Fundação Biblioteca Nacional), lançado em março e já esgotado. O livro, aproveitando expressão de sua lavra, é um “abraço fraterno” na literatura pátria. Entre as novidades estão quatro capítulos sobre a ficção produzida na década de 1960 e uma síntese dos autores teatrais – dos primórdios até a sombra prodigiosa de Nelson Rodrigues.

O tomo vendeu tão bem que ensejou nova edição, já no prelo, que logo virá à luz com revisões e acréscimos. Lançado originalmente em 2007, o protótipo de História… era considerado incompleto em suas 550 páginas. “Agora completei falhas, inseri novos nomes e estudei os contemporâneos e o teatro”, esclarece. Um dos mais importantes de sua geração, conhecido como “poeta da condição humana”, este porto-alegrense radicado no Rio de Janeiro senta-se na cadeira número quatro da Academia Brasileira de Letras – outrora ocupada pelos conterrâneos Alcides Maya e Vianna Moog. Aos 72 anos, Nejar é autor de Sélesis (1960), O Campeador e o Vento (1966), Casa dos Arreios (1973), Árvore do Mundo (1977) e Os Viventes (1979) – para citar apenas alguns nomes entre uma prolífica obra. Este último, aliás, foi reeditado em 2011. Na época do lançamento, no fim dos anos 1970, sua fecundidade poética ganhou a benção de Carlos Drummond de Andrade. Outra persona ilustre a admirar a ousadia e inventividade de Nejar foi Clarice Linspector, que uma vez declarou: “Ele atordoa os modelos e paradigmas da crítica literária”.

Hoje, o autor lamenta o fato de que ao longo de 40 anos foi “estranhamente boicotado” pela Feira do Livro de Porto Alegre – e diz não fazer mais questão de participar. Uma polêmica levantada por História… envolve Paulo Coelho, colega de ABL, que contestou via Twitter sua ausência no livro. Nesta entrevista, Nejar fala de diversos autores gaúchos, alguns esquecidos pelo tempo e pela crítica, como Eduardo Guimarães. Ao abordar os contemporâneos, garante não ter cedido ao laço sanguíneo para incluir no rol dos poetas Fabrício Carpinejar, seu filho.

Tanto História da Literatura Brasileira quanto Os Viventes são obras que muito bem poderiam não ter fim. Os leitores ainda podem esperar outras atualizações e poetizações?
Quanto à História…, penso ser necessariamente um work in progress, o que já fiz na edição que deverá sair em breve – já que considero este livro editado pela LeYa um novo livro. No que tange a Os Viventes, acredito ser edição definitiva. Depois de mais de 30 anos, formou-se uma galeria ou espécie de comédia humana poética em miniatura. Salvo se brotar, contra a vontade, algum personagem. Espero que não.

Em 2007, à época da primeira edição (pela Agir), o crítico Wilson Martins reclamou sobre o tom pessoal de sua análise em História… Martins disse que a “história literária é e só deve ser a história das obras”. O senhor respondeu que o crítico “desleu” seu livro e, em outras ocasiões, comentou que a crítica literária é desprovida de emoção.
Não concordo com Wilson Martins e, na página 1.008 de História…, observo que “se a história se embriaga de conceitos e técnicas, a aventura humana se nutre de metamorfose”. E as ideias não esgotam a realidade, nem a realidade esgota os símbolos… pois não são os conceitos que fazem a história, é a história que molda os conceitos. Donde não se pode afastar as obras dos autores que as criam. Para mim, a história precisa emocionar, sim, porque o historiador deve trabalhar a linguagem. “Nada de grande se faz sem paixão”, dizia, com acerto, Pascal.

A reedição de História… ganhou quase o dobro de páginas em relação ao original. O que o senhor levou em conta? Nessa reedição também foram resgatados “velhos autores”?
Não considero este livro da editora LeYa uma simples reedição de História…. É um novo livro, com ampliação da análise dos autores antes estudados e visão bem mais abrangente dos contemporâneos, com a inclusão de um capítulo sobre os pré-modernistas, com nomes esquecidos, mais ampliação na análise dos poetas, além dos cânones de 1945. Idem no que tange aos poetas de um tempo veloz, um capítulo sobre a ficção da década de 1960, outro sobre Ariano Suassuna, outro sobre a poesia da geração de 1960-1970, outro sobre o teatro contemporâneo. Se o volume da Agir tinha 550 páginas, este possui1,2 mil. É outro livro. Tem razão quando diz que resgatei velhos autores, corrigi injustiças e reposicionei cânones. O que fiz foi um amoroso olhar sobre a nossa literatura. E fiz isso hoje, quando os críticos, salvo exceções, se escondem nas universidades, com a quase extinção de suplementos e resenhas críticas. No parecer de Ricardo Piglia, praticamente “sumiram do mapa”. Os melhores leitores atuais, segundo ele, são os historiadores. E é preciso ousadia e coragem para enfrentar os contemporâneos, e não os autores já reconhecidos. E isso eu fiz.

O senhor faz uma revisão de autores simbolistas soterrados pelo Movimento de 1922. Entre eles, Cruz e Souza, Alphonsus de Guimaraens e o “gaúcho esquecido” Eduardo Guimarães. Historicamente, Guimarães foi relegado pelos próprios conterrâneos, e ainda parece ser. Seria ele o nosso poeta mais, digamos, underground?
Não entrei nos fundamentos da literatura gaúcha, tendo de encarar um tema mais vasto, os elementos basilares da literatura brasileira. Ademais, toda a história não deixa de ser uma antologia pessoal (como queria Borges) e a inclusão ou não de autores está sujeita a essa perspectiva. Concordo que Eduardo Guimarães foi relegado – o que foi clamante injustiça. E nada deve aos demais simbolistas. E, se foi underground, também o seria Alphonsus Guimaraens. Julgo a importância de Eduardo, inclusive precursora na métrica e na temática modernista.

A seção sobre autores da segunda metade do século 20 foi a que mais cresceu. Do Rio Grande do Sul, escritores como Moacyr Scliar, Luiz Antônio de Assis Brasil e João Gilberto Noll marcam presença. No entanto, Charles Kiefer e alguns outros não foram citados. O senhor considera a hipótese de acrescer ao livro nomes que ficaram de fora?
Como já frisei, a inclusão de autores está necessariamente sujeita à perspectiva e apreciação pessoal do historiador. Charles Kiefer foi posto na próxima edição, que está no prelo, como vários outros.

O senhor fala da singularidade de Simões Lopes Neto como contador de história: “Ele não inventa nada”. Nesse mundo tecnologizado, ainda há espaço para um novo Simões Lopes Neto?
Não falei apenas na singularidade de Simões Lopes Neto como contador de histórias, mas também como inventor de linguagem, absorvendo a tradição, o folclore, de uma forma universal, com tipos inesquecíveis. Tanto que é, por exemplo, precursor de um Guimarães Rosa.

O modernista Augusto Meyer introduziu uma feição regionalista na poesia. Meyer completa com Raul Bopp e Mário Quintana a trindade modernista do Rio Grande do Sul. Sua obra mais admirada, porém, é o ensaio Machado de Assis (1935).
O que penso sobre Augusto Meyer como poeta, crítico, folclorista e prosador está na minha História…, e não é somente como crítico de Machado de Assis. Isso seria reduzi-lo.

O romancista e ensaísta Clodomir Viana Moog, sobre o qual o senhor escreve no capítulo “Poetas da geração pós-modernista”, considerou que Alcides Maya foi em seu tempo o representante típico do núcleo cultural rio-grandense. O senhor concorda com Moog?
Acho valiosa a contribuição de Alcides Maya, sobretudo o aspecto que nele vige da decadência do pampa, com o progresso (Ruínas Vivas), mas não se pode esquecer Simões Lopes Neto e seu papel fundador. Alcides era um erudito da ficção, próximo de Coelho Neto. Penso que Moog exagerou.

Passado tão pouco tempo da perda de Moacyr Scliar, é possível avaliar o tamanho de sua obra?
Fui amigo de Scliar e o recebi na Casa de Machado (ABL). Dediquei a ele um capítulo, onde está valorizado. Com o tempo, é possível que aumente seu prestígio.

A Divina Pastora (1847), de Caldre Fião, é considerado o primeiro romance gaúcho. Há quem o tenha como o segundo da história da literatura brasileira. O primeiro seria A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo. Em 1992, o livreiro pelotense Adão Fernando Monquelat localizou, em Montevidéu, o único exemplar até hoje conhecido de A Divina Pastora. Por que o senhor não cita Caldre Fião?
É lógico que se tende a fazer barulho sobre as raridades, como se houvesse uma nova descoberta da pólvora, sem desvalorizar o esforço dos bibliófilos. A cada um, o que é seu. Não entro nessa contenda. Mas citei A Moreninha, de Macedo, o primeiro romance brasileiro. E as referências e apreciações que fiz decorrem de uma visão pessoal.

Uma das polêmicas suscitadas por História… envolve Paulo Coelho, já que o livro não o cita. Pelo Twitter, ele reclamou que foi ignorado: “Isso é que é pesquisa, digamos, tendenciosa ou malfeita”. Como fica a convivência na ABL?
A reclamação de Paulo Coelho, meu confrade na ABL, ao criar polêmica, ajudou a vender a minha História…. Respondo a ele na segunda edição [na prática, a terceira edição, a contar a lançada em 2007]. Aguardem.

Há quem lembre que o senhor não esqueceu seu filho, Fabrício Capinejar – a quem considera “um poeta de qualidade”. O senhor cedeu à paternidade?
Não. Todos que o conhecem e admiram sabem que não.

O crítico Alfredo Bosi, na apresentação de História…, considera “particularmente notável o largo espaço concedido à literatura contemporânea pelo livro de Nejar, o que o distingue dos congêneres”. A história da literatura contemporânea estava sendo esquecida pelos críticos?
Há vários críticos que apenas ficaram na apreciação de seus companheiros de geração e não ousaram ir adiante. O que não deixa de ser conservadorismo, um repetindo o outro infinitamente a respeito de autores já clássicos. É como se o passado se absolutizasse, com o impasse deliberado diante do novo – para não dizer cegueira. O verdadeiro crítico é o que é capaz de farejar a grandeza alheia no estado de linguagem.

Os números sobre leitura no Brasil indicam um país de “não leitores”, conforme definiu a The Economist recentemente. Escreve-se para quem, afinal?
Não são os escritores que inventam os leitores, são os leitores que sempre inventarão, mesmo em tempo de crise, os seus escritores.

Há pouco tempo, Woody Allen comentou que finalmente descobriu a universalidade de Machado de Assis. Que outros autores brasileiros têm essa vocação?
Há vários, além de Machado, que têm um grande paradigma de universalidade, como Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, José Veiga, João Ubaldo Ribeiro, Moacyr Scliar (haja vista O Centauro no Jardim). Deviam ser inseridos entre os ditos gênios do Cânone Ocidental, do americano Bloom.

O senhor já comentou que, após um tempo de silêncio, o Rio Grande do Sul começa a se voltar novamente para sua obra. Como anda essa relação?
O “amor ao Rio Grande”, após um período de silêncio ou exílio, está voltando ao começo. Não fui eu que me separei dele, pois o levo sempre na terra do coração e do poema. Mas acontece que minha terra é bairrista e trata mal os que têm de deixar o pampa para outras terras. Se ficasse no Rio Grande, não entraria na ABL, nem faria a obra que fiz – porque a distância da terra é o que nos sedimenta e fecunda. Todavia, o que sou é o pampa. Falei de um retorno, e é verdade. Recebi no ano passado, com Scliar, a comenda Ponche Verde. O atual governador, Tarso Genro, é um velho amigo, poeta, determinou o recital de meu Hino à Liberdade (homenagem aos heróis dos Farrapos) na grande cerimônia cívica do Palácio Piratini. Sairá também um livro meu, Um Homem do Pampa, com poemas dedicados à vida e ao povo do Rio Grande. Tive o meu nome na feira do livro de São Sepé e em Candelária – o que me honrou imensamente. Recordo os versos de meu filho Fabrício diante da injustiça: “Volta ao pampa, pai / pai, volta ao pampa”. Estou retornando.

Mais de uma vez, o senhor disse que o interior do Rio Grande do Sul costuma lhe receber muito mais fraternalmente do que a capital. Se fosse convidado para patrono da Feira do Livro, aceitaria?
Amo Porto Alegre, minha cidade natal, logicamente. Sou seu “cidadão honorário” e só guardo gratidão à terra, lembrança saudosa das suas praças e ruas, imensa ternura. Não tenho espaço para mágoas. Quanto à Feira do Livro, onde fui boicotado estranhamente por 40 anos, não faço nenhuma questão. Como na canção de Chico Buaque, “o tempo passou na janela/ só Madalena não viu”.

História da Literatura Brasileira, de Carlos Nejar

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