13/10/2011

Os policiais estão soltos

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Desde os contos de Allan Poe nos jornais da primeira metade do século 19, a literatura policial goza de considerável popularidade entre leitores de todo o planeta

Por Tailor Diniz*

Desde os contos de Allan Poe nos jornais da primeira metade do século 19, a literatura policial goza de considerável popularidade entre leitores de todo o planeta. É possível que o termo popular – custo baixo e apelo realista – tenha contribuído para um nada discreto preconceito aqui e ali, sob o argumento de que o policial é um gênero menor. Mas, menor ou não, resiste ao tempo e, a cada dia, ganha novos leitores.

Dois lançamentos recentes são representativos da agitação provocada hoje pela literatura policial no mercado editorial. Flávio Moreira da Costa, um veterano que tem se dedicado ao gênero, relança, reescrito e ampliado, A Noite de Mil Olhos. Publicado em 1984, com o título Os Mortos Estão Vivos, tem como protagonista o investigador Mario Livramento, um gaúcho radicado no Rio, que, depois de testemunhar um assassinato num bar, sai pelo mundo numa renhida busca dos nomes e fatos dos quais precisa para unir as pontas de um enredo que ele não descansará enquanto não desvendar.

Como suporte para a trama, Flávio recorre ao seu notório conhecimento de fatos históricos do período pós-Segunda Guerra, quando vários líderes nazistas fugiram para outros países, alguns acobertados por governantes locais, em especial na América Latina. A possibilidade de um desses criminosos estar ao lado, com identidade falsa, foi uma espécie de combustível no imaginário coletivo da época e uma constante presença nos noticiários locais e internacionais. E é desse clima que se vale Moreira da Costa para assentar as peças de seu enredo. A mistura de personagens fictícios com nomes reais e conhecidos, como o caçador de nazistas Simon Wiesenthal e Klaus Barbie (o carniceiro de Lyon), não travam a narrativa como às vezes ocorre em casos semelhantes. História e ficção se relacionam com equilíbrio, sem comprometer o fôlego de thriller proposto pelo autor, com direito a perseguições, sequestros e assassinatos, dentro e fora do Brasil.

O outro livro é Ficção de Polpa – Crime!, volume 4, da Não Editora, uma coleção bem cuidada e criativa, que, independentemente do conteúdo, é um verdadeiro mimo para quem gosta de livros. Reúne seis autores contemporâneos e traz uma faixa bônus – o conto “A moeda de Dionísio”, de Ernest Bramah. Fato normal em coletâneas, tem altos e baixos. Os dois primeiros contos (“As muralhas verdes”, de Carlos Orsi, e “A conspiração dos relógios”, de Yves Robert) são um tanto burocráticos, faltando neles um mínimo de tensão e suspense que os tornariam mais atrativos. No terceiro conto, “A aventura do americano audaz”, Octávio Aragão mostra-se um estudioso de Sherlock Holmes e reconstitui a personalidade do personagem, assim como a atmosfera das narrativas de Conan Doyle, como se fosse o próprio criador. No entanto, da metade para o fim o conto torna-se enfadonho demais.

O livro cresce no quarto conto, “A carne é fraca”, de
Rafael Bán Jacobsen, que escreveu uma história cerebral, bem pensada, com os ingredientes que o gênero sugere, tensão, suspense, boas sacadas e um final surpreendente. Estruturado em três vozes narrativas intercaladas, é o conto que melhor responde à proposta da coletânea. Depois vem Carol Bensimon (“Agulha de calcário”), com um texto de qualidade e enredo sutil, e Carlos André Moreira (“Um dos nossos”), que se serve de uma outra tradicional receita do gênero: a que segue a ordem de um cadáver no início, um inquérito e um investigador banda-boa da polícia para desvendar o crime. O desfecho é bem bolado, mas perde um pouco a força de impacto pela forma um tanto extensa e didática no momento de “explicar” tudo.

Ficção de Polpa – Crime!, organizado por Samir Machado de Machado, é um livro para ser admirado e guardado, em especial pela sua composição gráfica: capa, lombada, miolo com texto em duas colunas, ilustrado com propagandas de época, imitando antigas revistas do gênero, muito populares no início do século passado. Um projeto bem pensado – e executado melhor ainda.

*Tailor Diniz assina a coluna Livros na revista APLAUSO
**Resenha publicada na APLAUSO 111

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