10/10/2011

Por uma revolução colaborativa

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Crowdfunding surge como alternativa para contornar dificuldades financeiras e viabilizar projetos culturais de baixo orçamento

Por Marcos Graciani

Músicos, escritores, cineastas… Só quem trabalha diretamente com produção cultural entende quão grandes podem ser as dificuldades para tirar um projeto do papel – por mais qualidade ou relevância que ele tenha. É normal se deparar com a morosidade da burocracia estatal, com o ainda insuficiente apoio do governo e, também, com a timidez com que a iniciativa privada incentiva a cultura. No entanto, em meio à expansão das redes sociais, há quem utilize a internet como uma importante ferramenta para viabilizar projetos. Ainda que incipiente, o sistema colaborativo conhecido como crowdfunding (em tradução literal, “financiamento de multidão”) já é realidade no Brasil. Hoje, qualquer pessoa pode contribuir para a produção de filmes, peças de teatro, shows ou gravação de discos.

O movimento foi lançado em janeiro pela Catarse, empresa fundada em São Paulo por Luis Otávio Ribeiro e Diego Reeberg em parceria com o gaúcho Daniel Weinmann. Com poucos meses de atuação, os sócios uniram forças ao Grupo Comum, do Rio de Janeiro, na tentativa de impulsionar o negócio. Deu certo: em pouco mais de três meses, conseguiram amealhar mais de R$ 200 mil de colaboradores virtuais. Desse total, R$ 100 mil foram destinados a 11 projetos culturais. Os outros R$ 100 mil acabaram sendo devolvidos porque os projetos para o qual seriam destinados não alcançaram valores mínimos. Mesmo assim, a empreitada foi considerada um sucesso. Tanto que depois do exemplo da Catarse surgiram no país outros sites no mesmo modelo. Qualquer um pode participar como patrocinador de projetos. Basta fazer um simples cadastro, fornecer o número de um cartão de crédito ou transferir a quantia desejada para uma conta bancária. Os valores variam de módicos R$ 10 até R$ 3 mil – ou mais, dependendo do projeto. Conforme o valor doado, o “mecenas” recebe uma recompensa, que vai de crédito como apoiador até entrega de produtos, como cópias de filmes.

Por incrível que pareça, Luís Otávio Ribeiro diz que muitos projetos não decolam porque precisam de pouco dinheiro – isso mesmo, pouco. “A maioria dos artistas não consegue atrair empresas para bancar suas ideias porque precisa de verbas pequenas”, avalia. Segundo ele, hoje sócio do grupo Comum, com unidades no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, a sociabilidade do brasileiro na internet e o costume de fazer “vaquinhas” revelam que a ferramenta tem tudo para emplacar. Sem contar o fato de que o colaborador tende a ser um multiplicador da iniciativa, divulgando o projeto entre amigos especialmente por meio das redes sociais. Pensando no potencial da ferramenta colaborativa, o cineasta colombiano Juan Zapata, há sete anos radicado em Porto Alegre, resolveu experimentar. Conhecido por executar projetos de baixíssimo orçamento, Zapata abraçou o desafio de levantar recursos pela web para rodar o longa-metragem Simone. Com apoio da Catarse, o filme arrecadou pouco – cerca de R$ 4 mil. Como o valor não atingiu o mínimo estipulado, de R$ 30 mil, os recursos foram devolvidos aos patrocinadores.

Foto: Divulgação

Criador do Cinema em Rede, Zapata analisa novos projetos para a iniciativa

Mas o cineasta não esmoreceu: apostou na criação de uma comunidade virtual intitulada Cinema em Rede, direcionada especialmente para quem faz cinema. Com a novidade, Zapata arrecadou mais de R$ 42 mil. O valor corresponde a pouco mais de 20% do orçamento da película, mas suficiente para fazer o projeto andar. Agora, em meio ao processo de finalização do filme, o diretor espera novos apoiadores para fazer a distribuição em cinco países latino-americanos. Para isso, precisará de aproximadamente R$ 150 mil. O valor não assusta o realizador, para quem o crowdfunding confirma o costume dos brasileiros de deixar tudo para a última hora. No caso de Simone, quem doou R$ 10 terá seu nome creditado nas plataformas de divulgação do filme. Mesmo assim, a maioria dos participantes dessas ferramentas de financiamento colaborativo não pede contrapartidas. Zapata revela que a maior parte das doações para seu filme vem de apoiadores de cidades do interior do Rio Grande do Sul. “Fico comovido ao ver que as pessoas tomam esta atitude de contribuir”, diz Zapata, que, para tocar a carreira, chegou a vender um automóvel e quase terminou o casamento. No futuro, diz ele, seu sonho é ver o financiamento colaborativo como uma espécie de clube de futebol, no qual os sócios contribuam todo mês, assiduamente.

Uma das preocupações para o desenvolvimento deste modelo de incentivo no Brasil é a impossibilidade de receber doações de outros países. Zapata sente na pele esta limitação, já que não conta com a ajuda de seus conterrâneos colombianos. O que emperra o processo é o fato de que os sites de captação de recursos não aceitam depósitos de fora do Brasil. Apesar de ainda haver alguns pontos a serem melhorados, o novo modelo de incentivo é visto com otimismo por quem trabalha com cultura. “Quem investia em cinema nos Estados Unidos passou a não mais fazer por causa da crise que eclodiu em 2008. Lá, o crowdfunding se mostrou uma grande alternativa”, lembra o crítico Marcus Mello, diretor da sala P.F Gastal, na Usina do Gasômetro, e colunista de APLAUSO.

Nos Estados Unidos, empresas especializadas em crowdfun- ding, como a Kickstarter, tornaram-se referências mundiais ao captar em 2010 nada menos que US$ 53 milhões, beneficiando mais de 7 mil projetos. O economista e pesquisador Leandro Valiati, autor de Economia da Cultura e Cinema – Notas Empíricas sobre o Rio Grande do Sul, avalia como positiva a ideia, mas faz uma ressalva: “O crowdfunding  se mostra uma alternativa importante. Lembrando, é claro, que ela não pode substituir o papel das políticas públicas voltadas aos bens culturais”. Valiati sugere o colaboracionismo como uma saída viável especialmente para o cinema. Mas, como é de praxe, toda novidade carrega consigo certa dose de incertezas.

Para saber mais:
http://www.cinemaemrede.wordpress.com
http://www.catarse.me

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