10/10/2011

Querência

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O que Bagé representa para a fotografia de Luiz Carlos Felizardo

No rodeio das Palmas

No rodeio das Palmas

Algum tempo atrás, na APLAUSO nº 95, a coluna Imago falou de livros – então recém publicados – de dois fotógrafos gaúchos oriundos da região de Bagé, na fronteira com o Uruguai. Na verdade, mesmo nascido da intenção de comentar aquelas obras, meu texto indagava sobre uma questão que tinha começado a me provocar: como é que a região de Bagé, estigmatizada pela “grossura” gaúcha, produziu tanta gente sensível? E lembrava: “A incongruência aparente já rendeu a figura do notável Analista de Bagé…”.

Habituado a resolver minhas dúvidas mais pela imagem do que pelo texto, investi muitos dos meses seguintes num trabalho a que dei o nome de Querência – palavra que me encanta pela enorme carga de significados que evoca, em especial por deixar claro um afetuoso respeito pelo passado vivido, por nossas memórias (o que é, vejo hoje com mais clareza, a ideia condutora do que faço). Pois, também para mim, Bagé – para ser mais exato, o que foi o Passo das Pedras, bem perto da cidade – tem o significado afetivo de querência, pelo tempo de infância e juventude que passei por lá.

O trabalho realizado, do qual algumas fotografias já foram expostas, me agradou bastante, foi muito bom de fazer, mas não trouxe nenhuma resposta “definitiva” para a questão que o provocara – por que, entre tantos outros lugares, justamente Bagé? Por que seu Clube de Gravura, seus museus, galerias, artistas e fotógrafos? Quem sabe na raiz de tudo esteja o Visconde Ribeiro de Magalhães e sua preocupação com a cultura, expressa na Vila de Santa Thereza? Quem sabe a paisagem da região, tão rica – ainda que monótona na aparência, que não se entrega com facilidade, mas exige reflexão sobre ela?

Confesso que meus esforços para responder à pergunta foram em vão, mesmo que tenha conseguido, acho, revelar porque está lá uma das minhas querências fundamentais. Assim, limito-me a reproduzir o texto com que introduzi meu trabalho – que fala da importância da paisagem.

“Tenho um carinho muito grande pelo tempo em que, graças a um tio que vivia no campo, perto da fronteira com o Uruguai, pude conviver intimamente com a terra e com a paisagem do pampa gaúcho. Ao longo de quinze anos se instalaram definitivamente em mim as imagens criadas por aquela amplidão silenciosa, e os valores que aprendi a reconhecer nas águas, nas pedras, nas árvores, nos bichos — em sua relação conosco, os humanos — vieram a compor minha ligação estreita com a natureza.

À tardinha, todos os dias, meu tio sentava num galpão nos fundos da casa, que abria para uma paisagem vasta e imutável. Ficava ali, por muito tempo, em silêncio, fumando, tomando mate… e olhando. Muitas vezes eu ficava junto: por não saber muito bem o que fazer, olhava também, e as escassas palavras trocadas não interrompiam aquele estranho ritual de contemplação.

Aos poucos, lentamente, fui aprendendo a olhar. E comecei a ver a  paisagem diante de nós. Descobri que ela nada tinha de imutável: o delicado jogo de tonalidades do verde variava, como variava a estrutura mínima que as árvores desenhavam. Variava, principalmente, a luz. Os céus dramáticos do verão e das tormentas criavam sombras que corriam sobre o campo, o cinzento das chuvas ou da neblina estabelecia novos e misteriosos horizontes. De tanto olhar, descobri os infinitos detalhes que as sombras escondiam.

Nunca cheguei a compreender meu tio sentado, quieto, por um tempo que parecia medir-se por horas, naquela mais do que pura contemplação. Talvez minha lembrança esteja exagerando, e aquele ritual não fosse nem tão prolongado nem tão misterioso assim.  Mas estou certo de que foi ele, a seu modo silencioso e bom, que me ensinou a entender e amar a paisagem.”

Brete e galpão

Brete e galpão

Pampa, ovelhas e tormenta, 1984

Pampa, ovelhas e tormenta, 1984

*O fotógrafo Luiz Carlos Felizardo assina a coluna Imago na revista APLAUSO

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