13/10/2011

Sobre o falso nada

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O Cronista & Outros contos: seis histórias de Bolívar Torres publicadas numa edição primorosa da Oficina Raquel

Por Paulo Scott

Amigo meu, editor paulista de revista mensal de grande circulação nacional, costuma brincar dizendo que gaúcho bom é o que se desterra. Isso porque talvez seja notório o ufanismo que ainda envolve o imaginário regional deste nosso sul brasileiro, algo que ainda soa exagerado ao resto do país (não é à toa que o temperamento gaúcho acaba sendo alvo de tantas gozações). Pechas e rótulos a parte, o fato é que o teste do exílio, seja episódico ou permanente, faz com que se perceba a real extensão de alguns predicados. No caso da literatura contemporânea, quando se está fora, não é difícil encontrar o reconhecimento explícito da qualidade, da singularidade de autores como Scliar, Noll, Verissimo, Assis Brasil, escritores que inspiram autores novatos e leitores exigentes por todo o país.

Ter fixado domicílio na caótica cidade do Rio de Janeiro, e tendo de me deslocar a São Paulo de duas a três vezes por mês para eventos literários e reuniões de trabalho (sempre considerando que São Paulo é o ponto de convergência do que de mais interessante vem sendo produzido hoje no Brasil), me deu a distância necessária e as condições pra conseguir entender melhor a importância dos escritores gaúchos que começaram a publicar seus livros nas duas décadas passadas. Às vezes é preciso se afastar pra compreender o lugar e as possibilidades do lugar a que se pertence. Não estar envolvido com a rotina literária local, é o que penso, ajuda a dimensionar o que seria a lista de autores notáveis participantes desse boom recente, no qual nunca se produziu e publicou em tanta quantidade; uma lista que talvez deva começar por Cíntia Moscovich ou outro nome que tenha sido publicado ainda no início dos anos noventa.

Bem, não é minha intenção estabelecer um ranking ou chancelar a essencialidade deste ou daquele nome. Quero, na verdade, registrar o olhar de leitor que tenho procurado manter mesmo nestes dias em que o tempo é cada vez mais exíguo. Nesse processo ainda não abandonado, descubro nomes que merecem acompanhamento, estreias e segundas obras que me fazem acreditar ser possível, no andar da carroça, na manutenção da genialidade narrativa de um Dyonélio Machado, por exemplo. Ao lado de Daniel Pellizzari, Marcelo Benvenutti, Marcia Tiburi, Amilcar Bettega, Daniel Galera, Altair Martins, Veronica Stigger, Michel Laub e, mais recentemente, Antônio Xerxenesky, Olavo Amaral, Samir Machado de Machado, Ítalo Ogliari, Manoela Sawitzki, Carol Bensimon, descubro os contos de Bolívar Torres publicados numa edição primorosa da Oficina Raquel (destaco o trabalho da artista plástica Carolina Veiga servindo de ilustração para cada início de conto).

São seis histórias que respeitam as referências de estilo consolidadas ao longo do século 20 em torno da narrativa curta. Bolívar sabe usar e explorar a variação entre história aparente e história oculta, mas, sobretudo, consegue camuflar sua grande erudição sob a simplicidade que faz dos seus contos desdobramentos de um falso corriqueiro, de um comodismo mundano que ao se intricar sublima a existência, seus milagres e seus vazios – o que quando bem executado é sempre admirável. Destaco o conto “Homem de jaqueta” que, embora não tenha o fim que eu esperava (nisso também se descobre a magia da relação entre autor e leitor), é muito bem construído. Não posso deixar de mencionar também a história “Dona Eva”, que consegue avançar com vigor sobre temática tão recorrente em nossa literatura nacional; neste particular se nota a habilidade do autor em manusear as possibilidades narrativas.

No geral, Bolívar reprocessa, com voz própria, uma tradição narrativa que evidencia (nas situações mais ordinárias) a perenidade da existência e os lapsos que em torno dela se agrupam – soluções estéticas que, aos desavisados, aos desatentos, podem parecer fáceis de realizar, mas que não são. Aqui está um autor e um livro que dispensa a pirotecnia tão cara ao consumo imediato, aos idiotas que renegam o tempo próprio da literatura, aos que se habituam, aos que não querem ver.

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