10/10/2011

Uma cidade, várias culturas

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Cada vez mais heterogêneo, o Festival Internacional de Folclore de Nova Petrópolis chega à 39ª edição e se consolida como uma grande festa multiétnica de dança, artesanato e gastronomia

Por Vanessa Mello

Nem só da culinária alemã e de uma exuberante paisagem serrana vive Nova Petrópolis. Há quase 40 anos, a cidade localizada a 90 quilômetros de Porto Alegre sedia o que começou como um despretensioso evento de fim de semana e se tornou um importante palco para o folclore mundial. Nos últimos anos, a média de público registrada pelos organizadores superou a marca dos 50 mil espectadores – por ano. Realizado na primeira quinzena de agosto, o Festival Internacional de Folclore de Nova Petrópolis chega, em 2011, a sua 39ª edição. A alcunha “internacional”, cabe ressaltar, foi incorporada apenas em 2008. Para fazer jus à denominação, confirmaram presença neste ano grupos dos Estados Unidos, Argentina, Peru, Cuba, Bolívia, Turquia – e, como não poderia deixar de ser, da Alemanha, pátria-mãe dos nova-petropolitanos.

Apesar de a cidade estar acostumada a um fluxo turístico regular, durante as duas semanas do festival o ritmo do município se transforma. Também pudera: o número de visitantes chega a ser três vezes superior ao da população local, inferior a 20 mil habitantes. Para atender a essa en-xurrada de hóspedes, a rede hoteleira opera na capacidade máxima, as ruas fecham para desfiles, os restaurantes ficam lotados e muitas empresas abrem as portas para receber grupos folclóricos. Em cada comunidade, é evidente a preocupação com os ensaios para as apresentações. Ao mesmo tempo, os grupos locais preparam as candidatas ao disputado título de Soberanas do Folclore Alemão. Nas escolas, os estudantes são submetidos a aulas de imersão nas culturas presentes na grande festa folclórica.

Ao lado das danças típicas de países e regiões participantes do encontro, o artesanato é outro grande chamariz. Nesta edição, por exemplo, são expostos trabalhos da Bolívia, Peru, Equador e até mesmo da Indonésia. Além disso, a programação oficial inclui noites com debates culturais, competições germânicas e bailes – regados a muito chope. Mesmo com a diversidade de atrações, o que mais enche os olhos de quem passa pelas ruas de Nova Petrópolis nos dias do evento são os desfiles e as danças folclóricas. Alguns, com características bastante peculiares, como a Agrupación Folklórica Polinesica Takina I te Achi, da Ilha de Páscoa, que já participou mais de uma vez do festival – arrancando aplausos entusiasmados do público.

Os grupos brasileiros sempre foram maioria entre os participantes, mas o cenário começou a mudar alguns anos atrás, quando a organização do festival intensificou esforços para atrair grupos de fora do Brasil – o que confere maior projeção e legitimidade ao encontro. Tanto brasileiros como estrangeiros têm seus custos de hospedagem e alimentação cobertos pela organização, além de ganharem uma ajuda para cobrir gastos de transporte. Para Maria Zilles Knorst, primeira presidente da Associação de Grupos de Danças Folclóricas Alemãs de Nova Petrópolis, o intercâmbio cultural contribui diretamente para o fortalecimento do movimento folclórico da região.

“Nos últimos anos, o evento evoluiu muito, crescendo em atrativos. Os grupos internacionais se interessaram ainda mais em participar”, diz ela. Realizado através de uma parceria entre a Prefeitura Municipal, a Associação dos Grupos de Danças Folclóricas Alemãs e a Associação Tannenwald de Tradição, Cultura e Folclore Alemão, o festival é apoiado pela Organização Internacional de Folclore e Artes Populares.

Marketing rudimentar

Em 1973, Junara Hansen tinha apenas 21 anos quando, recém-casada, mudou-se de Porto Alegre para Nova Petrópolis. Incomodada com a calmaria da cidade, sugeriu ao prefeito Affonso Andreas Grings que criasse um evento para aumentar a visibilidade turística da região. Ainda que reticente, o mandatário municipal deu carta branca à jovem, mas sob uma condição: ela teria de se responsabilizar por toda a organização da empreitada. Aquela que seria em seguida a primeira secretária de Turismo da cidade se empolgou: “Ao saber que alguém fazia artesanato de qualidade, visitava essa pessoa e buscava o produto para ser exposto e vendido. Na primeira edição do festival, participaram da feirinha apenas malharias e fabricantes de produtos coloniais, como rapaduras de amendoim e mel”, lembra ela, que hoje gerencia uma pousada na cidade.

Curiosamente, no mesmo ano estava sendo criado o Festival de Cinema de Gramado, outro importante aconte-cimento da serra gaúcha – também realizado anualmente e no inverno. Em seus primórdios, o festival de folclore era realizado na Praça da República e as atividades eram restritas aos finais de semana. Nas tendas dispostas ao largo da Avenida 15 de Novembro, eram vendidas roupas, artesanato e calçados. As apresentações folclóricas completavam e davam charme à programação, com os grupos que desfilavam e dançavam munidos de indumentária típica alemã. Já naquele primeiro ano, estiveram presentes tradicionalistas e historiadores, atraídos pelas rodas de debates culturais.

Na primeira edição, havia uma única carrocinha de cachorro-quente, capitaneada “no amor” por professoras da rede pública municipal. Já a tenda do chope ficava sob responsabilidade do marido de Junara, José Mário Hansen, atual superintendente da Cooperativa Piá. A regra de que apenas moradores de Nova Petrópolis poderiam expor e vender produtos na feira foi quebrada pela porto-alegrense Ester Mendes da Silva. Sua participação, aliás, é considerada fundamental para o crescimento do festival. “Os filhos da dona Ester iam para Gramado e Canela todos os finais de semana. No Lago Negro e no Parque do Caracol, eles pediam aos motoristas dos ônibus de turismo que parassem na feira da praça, em Nova Petrópolis”, recorda Junara. Até hoje, dona Ester pode ser encontrada na Casa do Artesão, na Praça das Flores – um dos pontos mais visitados na cidade.

A estratégia de marketing, ainda que um tanto rudimentar, contava com apoio e participação da Polícia Rodoviária Federal. Nos primeiros anos de evento, aos sábados e domingos, todos os ônibus que passavam pela cidade eram parados por um oficial vestido com roupas típicas alemãs, que “convocava” turistas a visitar o evento. Aos motoristas e guias, eram entregues brindes. Os hotéis concediam diárias para jornalistas e formadores de opinião, enquanto as famílias locais alojavam os grupos dentro de suas próprias residências. Tudo na base da cooperação. Como a cidade contava com poucos restaurantes, a alternativa foi usar as salas de aula do Colégio Frederico Michaelsen. “

A comunidade se mobilizou, até mesmo com os professores cozinhando, servindo e fazendo o que fosse preciso para que todos saíssem satisfeitos e ainda aumentasse um pouco a renda da escola”, rememora Junara. A despeito de seus parcos recursos, já em seu início o festival conseguiu reunir nomes consagrados da cena folclórica regional, como Paixão Côrtes e Barbosa Lessa. Além disso, grupos como Os Serranos e até mesmo a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) ajudaram a dar credibilidade ao evento.

Intercâmbio e visibilidade

Ao promover um ambiente propício ao intercâmbio cultural, o Festival Internacional de Folclore de Nova Petrópolis possibilita o estreitamento das relações do Brasil com o exterior. Em 1993, por exemplo, 22 dançarinos de grupos folclóricos de Nova Petrópolis cruzaram o mundo para se apresentarem no Arita Porcelan Park, no Japão. Na época, a empresa que administrava o parque japonês procurava descendentes de alemães para fazerem apresentações típicas no local. Os nova-petropolitanos permaneceram seis meses no país asiático, onde realizavam até quatro performances por dia. Do primeiro intercâmbio para os seguintes foi um pulo e, nos anos que sucederam, muitos grupos saíram de Nova Petrópolis para correr mundo. “Assim começaram as primeiras integrações culturais que o festival sempre defendeu”, relata Carla Cristiane Ferreira, presidente do Festival Internacional de Folclore de Nova Petrópolis e diretora do Departamento de Cultura do município.

Invariavelmente, o destino mais comum sempre foi a Alemanha – afinal, nada como conferir in loco a cultura representada. “Algo que marcou bastante os dançarinos, quando começaram a viajar, foi o fato de que na Alemanha não existiam grupos de danças folclóricas como os nossos”, diz a presidente do evento. Carla Cristiane afirma que o intercâmbio promovido pelo festival serve tanto para difundir a cultura e a imagem brasileira no exterior como para colocar em evidência a comunidade serrana.

Atualmente, Nova Petrópolis mantém laços de irmandade com cidades da Argentina e da República Tcheca. A relação com os tchecos começou em 2007, quando o município se tornou cidade-irmã de Jablonec nad Nisou, depois da comprovação de descendentes tchecos no município gaúcho. A parceria resultou em diversas trocas culturais, como a realização de um curso daquele idioma em solo nova-petropolitano, além de viagens e apresentações. “Todo ano, eles participam do festival, assim como os grupos daqui levam a nossa cultura para lá”, completa Carla Cristiane. Já a irmandade com os argentinos de Sunchales foi oficializada no ano passado por um ponto comum: as duas localidades são capitais nacionais do cooperativismo.
Atualmente, o evento integra o calendário oficial da Organização Internacional de Festivais de Folclore e Artes (IOV-World). Antonio Clerton Vieira, vice-presidente de honra e secretário nacional da entidade, conferiu de perto o festival em 2010. Na ocasião, participou como relações públicas da Cia Txai de Dança, de Fortaleza (CE), e aproveitou para fazer um relatório à IOV. “O festival, o trabalho dos organizadores, o envolvimento de toda a cidade e o compromisso cultural da prefeitura de Nova Petrópolis me encantaram. Tive a certeza de que esse evento precisava ser reconhecido em todos os continentes”, garante. Hoje, a IOV-World tem o compromisso de divulgar Nova Petrópolis nos quatro continentes. De avaliador a entusiasta, Vieira revela que pretende buscar o reconhecimento oficial e particular da Unesco: “Gostaria que o festival fosse alçado à categoria de Patrimônio Imaterial brasileiro”.

Cultura germânica

Fundada em 1858 por imigrantes alemães oriundos da Pomerânia, Saxônia, Boêmia e da região do Hunsrück, Nova Petrópolis ainda mantém forte a cultura de seus colonizadores. Basta atentar aos costumes, ao sotaque, à gastronomia e à arquitetura da cidade. Assim como muitas comunidades cariocas costumam se preparar um ano inteiro para o Carnaval, a população de Nova Petrópolis faz do festival uma vitrine para seu legado histórico-cultural.

Uma das maiores porta-bandeiras do folclore alemão na cidade é Maria Zilles Knorst. Sua primeira experiência foi em 1978, quando coordenava e ensaiava danças, canto e teatro do folclore gaúcho com alunos da Escola Estadual São José, na comunidade de Pinhal Alto. “Queríamos desenvolver uma prática cultural que nos identificasse, então criamos o Volkstanzgruppe Tannenwald”, explica. O grupo, que é independente, tem como missão pesquisar, divulgar e preservar a tradição dos antepassados germânicos da região do Hunsrück, no sudoeste da Alemanha.

Entre os muitos aspectos que ainda reforçam o fato de que a cultura alemã ainda tem destaque durante o festival é a escolha das Soberanas do Folclore Alemão. Cada grupo de dança germânica local indica uma candidata, que passa por um criterioso sistema de avaliação, levando em conta vestimentas, conhecimento da cultura local, história do evento, atratividade turística da região, domínio do idioma, dança, postura perante o público – e, claro, beleza. Outra atração são os jogos germânicos, que entraram no calendário oficial em 1998. As atividades são realizadas a partir de pesquisas feitas em diversas regiões da Alemanha. Entre as disputas mais conhecidas estão o cabo de força e a competição de chope a metro – bastante comum nas tradicionais Oktoberfest mundo afora. Mas existem, ainda, algumas provas peculiares, como uma na qual as equipes precisam serrar um tronco. “Os grupos folclóricos disputam entre si, fazendo provas que resgatam a cultura e as tradições trazidas pelos imigrantes, uma grande diversão”, explica Carla Cristiane, presidente do festival.

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