11/10/2011

Uma obra imortal

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Uma análise do legado literário de Moacyr Scliar – autor gaúcho falecido em fevereiro deste ano

Por Felipe Polydoro
Foto: Agência RBS

“Quando nasci, correu pela vizinhança que eu me chamava Mico”, rabiscou o menino bonfinense. Era o início de uma autobiografia abortada dali algumas linhas, pois não havia muito mais a dizer. E cujo valor é o de ter sido o primeiro escrito de um futuro imortal da Academia Brasileira de Letras, que muitos anos depois autoironizou o “ego inflado” infantil. A frase-gênese teve algo de profético, pois o nome Moacyr Scliar – apelido familiar Mico – realmente correu a vizinhança e foi bastante além dela. O falecimento do escritor, em 27 de fevereiro último, ganhou destaque massivo na imprensa de todo o país.

Invariavelmente, coladas nas notícias vieram observações elogiosas de jornalistas, escritores, políticos, acadêmicos (das universidades e da ABL). A presidente Dilma Rousseff divulgou uma nota oficial lamentando a perda de um “ícone” da literatura.

Scliar angariou extensa projeção, disseminado e lido Brasil afora, traduzido para diversos idiomas. No Rio Grande do Sul, virou ídolo, talvez comparável aos maiores da literatura local, como Simões Lopes Neto, Erico Verissimo e Mario Quintana. Contribuiu para tanto, além da indiscutível qualidade literária, a personalidade carismática, atenciosa e infatigável. Scliar visitou os mais remotos rincões para palestrar e debater em feiras e eventos livreiros. Atendeu a tudo quanto foi convite, divulgou a vasta produção e conheceu quase todos os mortais e imortais que vivenciam o universo das letras. Um efeito colateral da inesgotável generosidade: as análises da obra tendem a misturar o estritamente literário ao – grande, solícito e querido – homem.

Nesta matéria, APLAUSO investiga o legado da obra de Scliar. O objetivo é deter-se apenas nas conquistas puramente artísticas da literatura do autor, a posição que ocupará no cânone nacional e que resulta exclusivamente da qualidade das suas criações. “Como toda produção literária, é preciso que o tempo nos dê uma perspectiva melhor para uma avaliação mais profunda”, avisa o escritor Cristovão Tezza. “Mas já dá para dizer sem dúvida que Scliar foi um escritor muito importante, pela ampliação temática da literatura brasileira e pela sua linguagem.”

Pelo menos dois dos entrevistados alçam Scliar à posição de absoluto destaque. “Ele está no primeiro plano entre os grandes escritores do seu período. Arrisco dizer que ele foi o autor brasileiro, na sua época, que fez a obra mais consistente e múltipla e que melhor dialogou com a cultura, entendida aqui no sentido amplo”, diz Luiz Antonio de Assis Brasil, escritor e secretário da Cultura do Rio Grande do Sul. O escritor Charles Kiefer tem opinião semelhante: “Desconfio que ele foi o autor que melhor enxergou o brasileiro do seu tempo”. Há comentadores que reconhecem as qualidades literárias, mas não chegam a elevá-lo acima de outros de sua época. “Ele foi um bom escritor de uma geração em que há muitos bons escritores”, resume Luiz Augusto Fischer, professor do Instituto de Letras da UFRGS.

O fato é que Scliar legou uma literatura bastante particular e múltipla, com mais de 80 títulos, e que trafegou por diversos gêneros: romance, conto, crônica, ensaio, para o público adulto e infanto-juvenil. A obra exibe uma penca de similitudes com seus contemporâneos, o que permite chamá-lo de um escritor de sua geração. Mas também contém gritantes singularidades que a tornam, em certo sentido, única. Os críticos divergem no momento de sublinhar as marcas tipicamente scliarianas que garantirão à obra um espaço no panteão literário nacional. Alguns dos pontos enfatizados: a questão judaica; o romance histórico ficcional pós-moderno; a aguda preocupação social; o humor de cunho irônico; o traço alegórico; o tema da construção da identidade; a linguagem simples, comunicativa, de tom oral.

“É difícil categorizá-lo sob uma só rubrica porque a variedade da sua obra (étnica, alegórica, sociopolítica, surrealista, incluindo um elemento significativo de jornalismo e crônica) aponta para uma arte multifacetada”, diz Nelson Vieira, professor de Português e Estudos Brasileiros na Brown University, dos Estados Unidos.

Sobre os animais

Embora escrevesse desde a adolescência, Scliar começou a publicar, de verdade, na virada dos anos 1960 para os 1970 – ele dispensava da bibliografia pessoal Histórias de Médico em Formação, lançado em 1962, uma coletânea de contos escritos durante a faculdade de Medicina. Carnaval dos Animais, o primeiro livro “oficial”, saiu em 1968. É um conjunto de contos alegóricos, de cunho fantástico, alinhados com o movimento do realismo mágico que vigorava na literatura latino-americana de então. Como é sabido, trata-se de um movimento que germina da vontade de carregar nas denúncias políticas e sociais, evitando se chocar de frente com governos autoritários e violentos.

“Ele pertence a uma geração que começa a publicar na pior época da ditadura, que mergulhou no conto nos anos 1960 e 1970 e que critica a realidade em que vive. São obras que buscam entender e explicar o Brasil”, diz Fischer. No caso de Scliar, um esquerdista confesso na época, os escritos críticos de então miram mais as perversidades econômicas e sociais, as desigualdades e aberrações burguesas, e menos os meandros políticos. Em Histórias da Terra Trêmula, conto do livro homônimo (1976), a empregada Gertrudes cresce até tornar-se gigantesca numa espécie de revanche contra a família de classe média para quem trabalha. Para sair de casa, pai, mãe e os dois filhos obrigam-se a abrir buracos na pele da empregada, cujo corpo crescido ocupou todos os cômodos. No final do conto, Gertrudes define os patrões como bichinhos a lhe tirar o sangue. Uma crítica explícita a certos aspectos do modo de vida burguês.

Dos escritores brasileiros daquele período, Scliar foi o único a recorrer anos a fio ao fantástico. É só pensar em outros expoentes dos anos 1960 e 1970, como Ignácio de Loyola Brandão, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e João Ubaldo Ribeiro: ninguém filiou-se ao mágico tão longa e intensamente. Se há uma tendência predominante na produção brasileira daquele tempo, é a de um realismo cru e brutal, visível sobretudo em Fonseca e Trevisan. Scliar desponta, assim, como o representante maior do fantástico na literatura brasileira da segunda metade do século 20, ramo que jamais encontrou numerosos adeptos em terras locais.

Para Assis Brasil, a ficção de Scliar não se encaixa exatamente no realismo mágico então em voga na América Latina – e que tem em Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, o exemplo perfeito. Quem leu Cem Anos… lembra que a inserção do fantástico se dá a conta-gotas e é sempre episódica – a magia aparece e some com naturalidade numa narrativa cujo cerne é realista. Nas histórias imaginativas de Scliar, os elementos fantásticos atrelam-se ao que há de mais fundamental, estruturam todo o desenrolar. São fantasias muito mais próximas das alegorias dos europeus Italo Calvino e Franz Kafka – este último, também judeu, influência marcada e explícita do autor gaúcho.
Tome-se O Centauro no Jardim, obra mais significativa de Scliar, escolhido um dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos no mundo inteiro. No interior do Rio Grande do Sul, o quarto filho de uma família de imigrantes judeus nasce meio homem, meio cavalo. Toda a trama se desenrola a partir desse fato inicial e em torno do centauro, Guedali. Nesse aspecto, lembra A Metamorfose, cujo lance fantástico originário, a transmutação de Gregor Samsa em um gigantesco inseto, condiciona a narrativa.

O Centauro… condensa boa parte das virtudes da poética de Scliar. O próprio autor revelou que o tema preponderante é a questão da identidade, sintetizada em uma metáfora fortíssima e polissêmica. Para o escritor Charles Kiefer, nenhuma imagem captura de forma tão profunda a angústia de ser gaúcho. “Ele coloca este dilema do Rio Grande do Sul de perder o lado cavalo, este gauchismo que nos coloca para baixo, para se integrar ao resto do país”, diz Kiefer.

Outros analistas da obra, porém, veem no centauro uma potente representação da condição judaica. A metade cavalo seria a herança étnica de um povo sem pátria, expulso da sua terra natal e em constante movimento, que precisa se integrar a diferentes povos e sociedades e, para tanto, deve extirpar parte do seu legado. Como toda metáfora que se preze, o centauro scliariano é uma imagem aberta. Na autobiografia literária O Texto, ou: aVida, o escritor dá pistas das suas inspirações: “Como o centauro, que é metade humano, metade equino, o filho de imigrante tem duas identidades”.

A fragmentação da identidade e o trajeto dilacerante e sinuoso que marca a existência moderna estão presentes em várias das obras de Scliar. Não se pode deixar enganar pelo humor irônico, pelos elementos fantásticos e pela linguagem dócil: o fundamental é uma visão um tanto melancólica e desencantada, que faz transbordar as contradições, dilemas e injustiças. Em resumo, revelam um escritor que não está feliz da vida com o estado das coisas. “O humor de Scliar não é aquele que desafoga, desopila. É sutil, que permite que se consiga suportar o doloroso. O diagnóstico que aparece do Brasil e da questão do judeu na sua obra é forte e cruel”, diz Regina Zilberman, professora do Instituto de Letras da UFRGS e co-organizadora do livro O Viajante Transcultural: Leituras da Obra de Moacyr Scliar.

Em narrativas como O Exército de um Homem Só e Os Voluntários, o fracasso dos protagonistas é retumbante. Em A Majestade do Xingu, um relato sobre o personagem verídico Noel Nutels, o narrador é um frustrado comerciante que conheceu Nutels na infância. Ou seja, em vez de exaltar a heróica vida do médico imigrante que mergulhou no Xingu para ajudar os índios brasileiros, o romance tem no malfadado narrador o personagem principal.

Para Nelson Vieira, ao retratar paradoxos com tanta riqueza, Scliar acabou forjando o lugar da diferença e da alteridade na literatura brasileira. São histórias que abalam o pensamento dominante. Afinal, o imigrante é, ao mesmo tempo, alguém de dentro e de fora, uma ambiguidade insolúvel – como bem retrata a imagem híbrida do centauro.

Pioneirismo

É com esse espírito híbrido que Scliar aborda a questão
judaica, outra marca registrada Foto: Agência RBSda sua obra – força motriz da projeção alcançada fora do Brasil. Embora carregada de influências do imaginário dos judeus, é uma literatura que não está preocupada prioritariamente com as agruras históricas deste povo, mas com o cotidiano do imigrante na realidade brasileira. “Ele não faz uma reflexão existencial sobre a questão judaica em si, mas trabalha esta sempre em articulação com o real e o social da sua época”, sublinha Assis Brasil.

Professora aposentada da Unicamp e da USP, líder de um grupo que pesquisa a presença do estrangeiro na literatura, Berta Waldman aponta Scliar como o pioneiro na inserção do imigrante nas letras brasileiras, fato que por si só já garante um espaço no rol dos maiores literatos brasileiros. Até então, personagens oriundos de outros países apareciam como figuras estereotipadas, sempre de acordo com a visão esquemática e diminuída que se tinha do imigrante. “Ele escolheu um tema que não existia no Brasil. É algo muito original e particular da obra do Scliar acompanhar essa história que é muito brasileira, uma nação feita de estrangeiros”, analisa Berta Waldman.

Os imigrantes começam a ganhar o devido espaço na ficção nacional pelas mãos da segunda geração, dos filhos dos estrangeiros que aportaram no país. Os pais de Scliar eram russos, vindos da Bessarábia, região onde os judeus sofriam perseguições. No Brasil, instalaram-se no bairro porto-alegrense Bom Fim. Na infância, o menino ouvia intermináveis causos dos vizinhos imigrantes, experiência que deixou marcas indeléveis na sua literatura. Scliar foi, acima de tudo, um contador de histórias, e o foco no relato determinou a linguagem comunicativa, que privilegia a oralidade. “A linguagem dele não tinha experimentalismo e malabarismo. Scliar sempre buscava uma simplicidade”, argumenta Regina Zilberman, professora do Instituto de Letras da UFRGS.

O estilo corrente e simples da prosa do escritor rendeu algumas observações críticas quanto a um possível desleixo em alguns dos textos. A maior parte dos entrevistados desta matéria discorda desse tipo de visão. E o fato é que, mesmo quem tem reparos a certos aspectos da obra do autor, evita enunciar essa opinião em alto e bom som, dada a admiração e o carinho generalizados pelo homem Moacyr Scliar.

Entusiasta das obras iniciais de Scliar, Berta Waldman identifica problemas de estrutura em alguns romances mais recentes, além da falta de um maior trabalho de lapidação do texto. Como resultado, na opinião de Berta, há livros feitos a partir dos anos 1990 que não podem ser considerados “grandes obras”.

Para o escritor Cristovão Tezza, um debate em torno da estilística em Scliar fica meio sem sentido, pois não se tratava de algo relevante para ele. “Eu acho que essa dicotomia entre cuidado formal e desleixo é falsa, porque oculta outras dimensões da realização literária. Normalmente, quando se fala em rigor formal, tem-se em mente apenas um tipo de literatura muito específico, e que não tem nada a ver com o mundo do Scliar”, diz Tezza.

A vida passa

O mundo de Scliar foi se alterando ao longo do tempo. No início da carreira, o cenário é principalmente o Rio Grande do Sul e o estilo que prevalece é o fantástico de cunho alegórico. Com o passar dos anos, as tramas se espalham pelo país. E a magia dá lugar a uma abordagem mais realista – mas não o realismo naturalista e chocante de ficcionistas como Rubem Fonseca. Scliar filia-se neste período ao romance de fundo histórico, que se vale de elementos reais para erigir uma trama ficcional. Normalmente, as histórias são relatadas a partir do ponto de vista de determinado personagem, evitando um aprisionamento à verdade. É um tipo de narrativa que se encaixa na literatura pós-moderna. Na verdade, há outros traços scliarianos tipicamente pós-modernos, como a questão da identidade fragmentada, a aceitação das diferenças e do outro, o deslocamento permanente em busca de um chão firme – em alguns desses pontos, curiosamente, a condição pós-moderna encontra a temática judaica.

Nas últimas obras, o foco se ampliou ainda mais e o cenário passou a ser internacional. É o que ocorre no livro A Mulher Que Escreveu a Bíblia, que rendeu ao escritor seu terceiro Jabuti – o prêmio mais prestigiado da literatura brasileira. Mas essa divisão de fases com base na geografia pode ser enganosa, pois, desde o início, Scliar dotou sua ficção do universalismo das grandes obras. “A sua produção ultrapassa as fronteiras do regionalismo e da etnicidade porque dramatiza questões filosóficas sobre a condição humana”, diz Nelson Veira, da Brown University.

É um fato que seguramente vai contribuir para que a obra tenha seu espaço no panorama literário brasileiro e mundial, mas ainda é cedo para se estimar a dimensão dessa importância. Como disse Scliar na sua autobiografia literária: “A vela que, na infância, arde no bolo de aniversário é a mesma que enfeita o caixão. A vida passa; escrevendo, ou fazendo medicina, ou formando uma família, ou militando politicamente, ou trabalhando, ou bebendo – a vida passa. Chega um momento em que tudo o que esperamos das velinhas é que iluminem, com sua tênue luz, o nosso passado e nos permitam extrair alguma conclusão das nossas trajetórias”.

Cinco obras para conhecer Scliar:

A Guerra no Bom fim
Garotos, em geral filhos de imigrantes judeus, guerreiam contra os alemães dentro do bairro porto-alegrense, durante a segunda guerra mundual. Recheado de elementos fantásticos, o inventivo primeiro romance do escritor é uma crônica do cotidiano bonfinense, região onde o autor nasceu e cresceu.

O Centauro no Jardim
A obra maior de Scliar, incluída na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos do National Yiddish Book Center (EUA). Alegoria do processo destrutivo da formação da identidade? Metáfora da condição judaica? Imagem do gaúcho: meio cavalo, meio homem? A rica e polissêmica imagem do centauro já se tornou clássica na literatura brasileira

A Majestade do Xingu
Incomodava Scliar a ideia de produzir uma biografia romanceada de Noel Nutels, médico, imigrante judeu que se embrenhou na Amazônia para tratar os índios. O narrador é fictício, alguém que chegou ao país no mesmo navio de Nutels mas fracassou em todas as empreitadas. Representante da literatura pós-moderna: mistura de ficção e realidade.

A orelha de Van Gogh
Vencedor do prestigiado prêmio Casa de las Américas, traz o Scliar contista em plena forma: criatividade luminosa, linguagem simplíssima, fábulas referenciadas em diversas fontes, como a Bíblia. E, como sempre, a observação irônica cravada de melancolia.

Saturno nos Trópicos
Oportunidade para conhecer tanto o Scliar ensaísta quanto o médico. Um texto consistente e denso, fundamentado em diversificada pesquisa, investiga a melancolia desde suas raízes europeias até a “chegada” ao Brasil.

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