20/10/2011

O nordeste e o valor da produção local

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Primeira virada cultural de Recife teve exposições, circo, teatro, cinema, moda e gastronomia – mas o ponto alto foi mesmo a música nordestina

Por Ricardo Lacerda

Alceu Valença fez um dos mais elogiados shows da Virada

Berço de importantes expressões culturais, como o frevo e manguebeat, Recife sediou em meados de outubro a primeira edição de sua Virada Multicultural – Conexão Nordeste. Promovida pela Prefeitura Municipal com apoio da iniciativa privada, o ciclo de eventos contemplou 48 horas de uma programação de mais de 60 atrações – entre a noite de sexta-feira, dia 15, e a de domingo, 17. Logo na abertura, o público pôde acompanhar pelas ruas de Recife Antigo o cortejo conduzido por Lia de Itamaracá, a “rainha da ciranda”, e Siba, cofundador do grupo Mestre Ambrósio, um dos pioneiros do movimento manguebeat. Apesar de a Virada abarcar manifestações artísticas variadas, como música, teatro, cinema, moda e gastronomia, as principais atrações foram musicais e se concentraram no Marco Zero, às margens do rio Capibaribe, defronte ao mar.

Nação Zumbi: ausência de Chico Science compensada com maturidade artística

Diferentemente das Viradas já tradicionais de São Paulo e do Rio de Janeiro, recheadas de toda sorte de atrações, inclusive internacionais, a do Recife concentrou sua programação musical em nomes da região. Uns bastantes locais, outros renomados nacionalmente. Foi o caso de um Alceu Valença inspiradíssimo, entoando hits, brincando com o público, mostrando o dedo médio para a câmera da Rede Globo e cortando as unhas no palco – “não tenho tido muito tempo para isso”, disse, às gargalhadas. Já a Nação Zumbi, ao mesmo tempo em que resgatou clássicas do tempo de Chico Science, não deixou de mostrar plena forma musical. Ainda pouco conhecida em outras plagas, como no sul, a Orquestra Contemporânea de Olinda teve suas músicas cantadas em uníssono. Naná Vasconcelos, um dos mais internacionais artistas brasileiros, subiu ao palco no crepúsculo dominical acompanhado por um coral de 50 crianças com idades entre sete e dez anos, num belo espetáculo de encerramento da Virada. Na noite anterior, ainda houve espaço para o cearense Raimundo Fagner, que apresentou sucessos da carreira, e para o bem-humorado Chico César, atual secretário de Cultura da Paraíba, autor de uma interessante mistura de forró, frevo, quadrilha e reggae.

Considerada a cereja do bolo da Virada Multicultural de Recife, o Buena Vista Social Club foi a última atração da noite de sábado, tocando para um público de mais de 20 mil recifenses. Apesar contar apenas com Barbarito Torres, o “rei do alaúde”, da formação consagrada por Ry Cooder e Wim Wenders, os cubanos não decepcionaram. No palco, três gerações representaram ritmos caribenhos como rumba, bolero e son: da vocalista Laritza Bacallao, de apenas 21 anos, ao sorridente Ignazio Mazacote, de 84 anos – que, lembrando Compay Segundo, sorvia um portentoso charuto minutos antes de subir ao palco.

Barbarito Torres (ao centro) é o líder da formação do Buena Vista Social Club que se apresentou em Recife

Perto do Marco Zero, o centenário Teatro de Santa Isabel abrigou três apresentações de Murmures des Murs, principal espetáculo do Festival de Circo do Brasil, que foi integrado à programação da Virada. A peça é uma deliciosa montagem criada e dirigida por Victoria Thierrée-Chaplin, caçula de Charlie Chaplin, e protagonizada por sua filha, Aurélia Thierrée. Misto de dança, circo, acrobacia e ilusionismo, o espetáculo foi ovacionado pelo público, que não deixou nenhuma cadeira vazia do suntuoso teatro.

Enquanto a cidade vizinha de Joboatão dos Guararapes viu, nos mesmos dias, suas ruas serem tomadas de gente com a micareta do PE Folia (reencarnação do extinto Recifolia) – com shows de Cláudia Leitte, Timbalada, Jammil, Netinho, É o Tchan e Molejo –, a capital de Pernambuco mostrou-se seletiva e democrática. Seletiva por priorizar nomes de reconhecida qualidade. Democrática porque a programação, além de ser gratuita, reuniu ritmos que iam do indie ao frevo. Agora, um aparte: o festival No Ar Coquetel Molotov, realizado há anos, foi também integrado à programação da Virada. Para isso, a Prefeitura bancou a compra de 500 ingressos. Com um público bem distinto daquele que marcou presença no Marco Zero, o Coquetel reuniu basicamente jovens com idades entre 20 e 30 anos, atraídos por artistas como Lobão, Racionais MCs, os americanos da Health e os britânicos da Gillemots.

Naná Vasconcelos encerrou a Virada acompanhado por um coral de 50 crianças

Pensada desde 2009, a Virada Multicultural do Recife – Conexão Nordeste teve custo aproximado de R$ 3 milhões. Segundo o mandatário municipal, João da Costa (do PT), metade do valor saiu dos cofres da Prefeitura enquanto o restante foi bancado por um pool de patrocinadores (Petrobras, Empetur, Caixa, AmBev e Magazine Luiza).

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