16/11/2011

A arquitetura e a 8ª Bienal do Mercosul

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A arte contemporânea abre um leque de possibilidades, meios, linguagens e mídias, exigindo o posicionamento crítico do observador, que interage com as obras

Por Beatriz Dorfman, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS

Alunos de escola pública visitam instalação no Aeromovel. Foto de Lívia Stumpf / indicefoto.com

Eventos de arte contemporânea como a 8ª Bienal do Mercosul aportam discussões com a arquitetura em diversos sentidos. As principais características das manifestações artísticas são o movimento constante e o questionamento – ou seja, a proposição da reflexão. A arte faz perguntas, não dá respostas, ela escapa, muda de forma. A arte contemporânea superou as categorias estabelecidas e eliminou os critérios tradicionais, abrindo o leque de possibilidades, meios, linguagens e mídias, exigindo o posicionamento crítico do observador, que interage com as obras.

Arquitetura é representação, comunicação. Ela materializa nas formas dos objetos e da cidade as relações humanas, sociais e a cultura. O objeto da arquitetura é o homem na cidade. A disciplina da arquitetura é composta por múltiplas dimensões, tais como: arte, técnica, ciência, ética, consciência social e hospitalidade. A Bienal aposta na interação, nas relações de afeto, na troca de energias.

Neste início do século 21, vivemos um momento de transição, de mudanças de valores e de paradigmas talvez ainda mais radicais do que as rupturas realizadas pelos movimentos modernos nas primeiras décadas do século passado. Nas obras da arte contemporânea, especialmente no vídeo e no cinema, a unidade é obtida pela montagem ou colagem de fragmentos. A cidade é o exemplo paradigmático deste processo, porque ela mesma é um ser vivo, em constante modificação, e a sua apreensão se dá pelo movimento do observador.

O suíço Le Corbusier foi um dos principais arquitetos da modernidade e, além de ter projetado obras significativas, seus textos esclareceram conceitos definitivos para a arquitetura. No pequeno livro Mensagens aos estudantes de arquitetura, afirma que “a arquitetura põe em cena o homem”. Designa a arquitetura como receptáculo, a cidade como o espetáculo da vida na rua e destaca, ainda, o desenho da cidade como gesto de cuidado. “Arquitetura é um ato de amor e não uma representação”. Para ele, a arquitetura descobre a poesia da cidade e é, simultaneamente, cultura, comunicação, escala, época, valor humano, flor do espírito criativo.

Para o arquiteto, obras de arte são exercícios de percepção e de análise dos espaços e de suas relações com a vida e com a cidade. Os objetivos dos processos de criação artística não são de embelezar ou enfeitar paredes e, nem sempre, resultam em bens decorativos. O arquiteto, assim como os demais espectadores das obras de arte, tem, na Bienal, uma oportunidade de exercitar o espírito crítico e analítico, entrando em diálogo com obras, com os artistas e com os espaços da cidade. É uma rica oportunidade para que a arte saia de dentro dos ateliers e se aproxime da vida e das pessoas.

Oficina promove a ocupação da escadaria da rua João Manuel. Foto: Camila Cunha / incidefoto.com

O conceito desta 8ª Bienal do Mercosul envolveu questões de territórios e de identidades nacionais, povos, etnias, culturas, imigrações e geografias. Muitas obras fazem referências a fronteiras e paisagens, salientando cores, espécies vegetais e formas topográficas e geológicas. Como nas edições anteriores, a Bienal esteve em diversos espaços da cidade. Cada espaço oferece suas especificidades físicas para um conjunto de obras, como suportes diferentes que interagem com os trabalhos dos artistas.

O simples fato de utilizar os Armazéns do Cais do Porto, por exemplo, aproximando as pessoas destas edificações e da orla do Guaíba, já é um aspecto importante do evento para a arquitetura e para o urbanismo de Porto Alegre. E este talvez seja um passo para devolver à cidade o direito de usufruir das suas belezas e da sua paisagem natural.

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