10/11/2011

Cinefilia em crise?

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Onde estariam os espectadores adultos, inteligentes, sensíveis e curiosos?

Por Marcus Mello*

Porto Alegre, 3 de junho de 2011, sexta-feira. Entravam em cartaz nos cinemas da cidade cinco novos filmes brasileiros: Bróder, de Jefferson De, Estamos Juntos, de Toni Venturi, Não Se Pode Viver sem Amor, de Jorge Durán, Quebrando o Tabu, de Fernando Grostein Andrade, e Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro. À noite, na sessão das 21h30, no GNC Moinhos 4, apenas seis pessoas na plateia assistiam ao filme de Toni Venturi, recentemente premiado no Festival de Recife e com os atores globais Leandra Leal e Cauã Reymond no elenco.

Já na Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro, cinco pingados espectadores conferiram o irônico documentário de Gabriel Mascaro sobre os habitantes das coberturas de prédios de luxo em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Não muito diferente deve ter sido o desempenho de bilheteria dos outros títulos da lista, pois na sexta-feira seguinte Bróder, vencedor de vários Kikitos no Festival de Gramado de 2010 (incluindo melhor filme), que sete dias antes havia estreado em quatro salas, mantinha-se apenas na sessão das 17h, na minúscula Sala Norberto Lubisco da Casa de Cultura Mario Quintana. Estamos Juntos, lançado em três salas, aguentava-se somente em uma. Já o filme de Durán ficou restrito à solitária sessão das 22h15 no Guion 3.

O que poderia, à primeira vista, ser interpretado como um sinal da falta de interesse dos porto-alegrenses em relação ao cinema brasileiro, na verdade esconde um dado bem mais preocupante: a crescente diminuição do público cinéfilo local. Pois não apenas os bons filmes nacionais são tratados com indiferença. Lançamentos recentes de produções como o coreano Poesia (melhor roteiro no Festival de Cannes em 2010), o francês Turnê (prêmio de melhor direção para Mathieu Almaric, na mesma edição do festival) ou mesmo a digna produção americana Deixe-me Entrar (correta refilmagem do sueco Deixa Ela Entrar, sobre uma menina vampira) passaram batidos por aqui.

Mas onde estariam os espectadores adultos, inteligentes, sensíveis e curiosos que deveriam estar assistindo a esses filmes? Acotovelando-se nas filas para garantir seu ingresso para a animação Rio (que, na semana de sua estreia, ocupou quase metade das cerca de 60 salas de Porto Alegre)? Ou estariam em casa, baixando filmes na rede? Ou, ainda, buscando as últimas novidades na locadora da esquina?

Certamente, nenhuma das hipóteses acima citadas deixa de estar relacionada a esse fenômeno de evasão de público. O fator Rio, que amanhã ou depois deverá ser substituído pelo fator Shrek 8 ou A Era do Gelo 11, apenas confirma o galopante (e, eu ousaria afirmar, assustador) processo de infantilização do público adulto de cinema observado nas últimas duas décadas. Meus caros leitores nascidos depois dos anos 1990, juro de pés juntos que pouco antes de vocês terem vindo ao mundo os filmes infantis eram vistos basicamente por crianças. Os adultos iam ao cinema para ver filmes de gente grande, coisas como O Iluminado, Blade Runner, O Baile, Fanny e Alexander, Touro Indomável, Veludo Azul… Naquela época, também, só as crianças viajavam para a Disney. Casais crescidos não iam para lá passar a lua-de-mel.

Já as mudanças de hábito provocadas pelo avanço das novas tecnologias igualmente contribuíram para afastar parte do público das salas de exibição. Hoje, qualquer indivíduo com um bom serviço de banda larga pode ter acesso às mais recentes novidades do mercado cinematográfico no conforto de sua casa. Sem falar na impressionante imagem em alta definição do Blu-Ray ou nas maravilhas do YouTube. Ainda assim, isto não explica tudo.

O cineasta Gustavo Spolidoro, de Ainda Orangotangos, e também diretor do Festival CineEsquemaNovo, é um dos mais preocupados em enfrentar o que chama de “gargalo do público” dos cinemas. Recentemente, escreveu uma carta aos diretores das salas do chamado circuito alternativo da cidade (Cine Santander, Sala P. F. Gastal, CineBancários e Casa de Cultura Mario Quintana), sugerindo uma ação conjunta para “tentar chacoalhar um pouco essa cena que se apaga cada vez mais”. Chocado com a reduzida presença de espectadores dispostos a assistir aos filmes programados na última (e excelente) edição de seu festival, realizada em abril, Spolidoro está empenhado numa campanha para reverter essa apatia do público.

Cinéfilos porto-alegrenses, uma raça em extinção? O tema é complexo e grave. Merece, portanto, maior reflexão. Voltaremos a ele, e a contribuição dos leitores seria muito bem-vinda. Por favor, cartas à redação.

*Marcus Mello assina a coluna Cinéfilo na Revista APLAUSO

2 ideias sobre “Cinefilia em crise?

  1. Prezado Marcus,
    a atividade cinematográfica no Brasil se tornou propriedade de uma casta de eleitos pelo sistema, através de uma política concentradora e excludente, e, não por falta de avisos, suicida. Agora, quem gerou o cadáver que o vele com toda a pompa e circunstância. Aos exilados só nos resta acenar de longe.

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