10/11/2011

Radiófilo inveterado

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O funcionário público Daltro D’Arisbo aproveita as horas vagas para garimpar peças e equipamentos para seu acervo de mais de 150 rádios antigos

Por Naira Hofmeister

Basta entrar no apartamento 501 do edifício 270, numa movimentada rua do bairro Menino Deus, em Porto Alegre, para ver que não se trata de uma simples residência. Espalhados em seus cômodos estão mais de uma centena de rádios antigos – tudo devidamente organizado e catalogado. Quase todos são modelos raros, fabricados entre as décadas de 1920 e 1960 e que, apesar das agruras do tempo, funcionam perfeitamente. Isso hoje, porque quando chegaram às mãos de Daltro D’Arisbo suas condições eram precárias. “Costumo pegar a maioria dos aparelhos completamente destroçados, às vezes sem peça nenhuma. Eles vêm imundos, com ninho de rato, barata morta, cascudo, até aranha viva”, diz, sorrindo, um simpático senhor de 57 anos, casado e pai de dois filhos.

Para dar vida a equipamentos muitas vezes tidos como lixo, é necessário engendrar um criterioso processo de restauração, num esforço para fazê-los funcionar tal como quando foram lançados. Tamanho trabalho não parece fácil nem mesmo para eletrotécnico. Imagine, então, se executado por um auditor fiscal do Ministério do Trabalho apenas em seu tempo livre. Ainda que improvável, é exatamente isso o que faz D’Arisbo. Carente de formação técnica, o misto de colecionador, pesquisador e restaurador encontra orientações em antigas apostilas de cursos a distância do Instituto Universal Brasileiro e do Instituto Monitor. “As pessoas faziam esses cursos e depois os livros acabavam indo parar em sebos. Eles ensinavam como consertar de rádios a válvulas, que distam um tanto dos rádios mais modernos. Ali a coisa está direta, não é preciso fazer inferências”, afirma.

Como a profissão demanda viagens por todo o Brasil, avaliando condições laborais em portos, o colecionador só consegue se dedicar ao hobby nos finais de semana. Por isso, o restauro de cada peça acaba sendo, geralmente, um tanto demorado. Alguns são feitos em dois meses. “Esses são os fáceis. Outros levam muito mais tempo, como um que me tomou oito anos de tentativas até o acerto final”, relata. Uma das dificuldades é o fato de que a maioria dos fabricantes não existe mais. “A General Electric agora fabrica locomotivas e turbinas de avião. A RCA só existe na camiseta da seleção argentina, e é outra empresa, totalmente diferente. Cada vez mais, encurta o mercado. Nenhuma se mantém atuando nas suas origens, na essência. Quem sabe, a Phillips”, lamenta.

Para fazer parte do que se pode chamar de catálogo oficial do Museu do Rádio, os equipamentos precisam atender aos seguintes requisitos: ter tecnologia arcaica, estar funcionando e ser a válvula. Na opinião de D’Arisbo, quando os engenheiros elétricos descobriram o transistor, por volta dos anos 1960, o negócio perdeu a graça. “Eu parei na válvula, e é daí para trás. Rádio antigo pra mim tem de ser dos anos 1940, 1930 ou 1920”, avalia. Para não parecer tão radical, garante aceitar aparelhos com retificação a diodo, tecnologia intermediária entre a válvula e o transistor: “Mas esses eu não gosto e peço para amigos fazerem o restauro”. Não bastasse a escassez de informações técnicas sobre cada equipamento, outra dificuldade reside em encontrar válvulas – que há tempos deixaram de ser fabricadas.


O perfeccionismo é tanto que o colecionador não admite montar um Frankenstein – ou seja, usar uma peça ou botão que não seja de um mesmo modelo de equipamento. “Aí fica uma coleção de Fusca com mecânica de Opala. Tem gente que faz isso, mas é como borboleta com asa de mosca”, metaforiza. Depois de identificar o que pode estar faltando em um rádio recém-adquirido, D’Arisbo bate perna garimpando lojas de antiguidades, briques e até mesmo baús de amigos. “A média de idade das válvulas é maior que a minha: algumas têm 70 ou 80 anos. Além disso, os testadores são igualmente antigos e também estragam”, esclarece. Mesmo assim, há casos em que é impossível encontrar o que procura. Desistir? Que nada. A solução – inusitada – é recorrer a um amigo especialista em próteses dentárias. “Se ele pode fazer um dente com gesso, pode fazer um botão”, descomplica.

Paixão antiga

O passatempo predileto de Daltro D’Arisbo remete à infância. Filho de um oficial de comunicações do Exército, ele cresceu em meio a restos de rádios. “Eram materiais descarregados, coisas que iam para o lixo, como fones e fios. Eu e meu irmão mais velho brincávamos muito com esses equipamentos”, rememora. A diversão das crianças era acompanhada de perto pelo pai enquanto escutava programas em um modelo importado dos Estados Unidos. O rádio, um Hallicrafters S-38, fabricado em 1948, ostenta hoje a etiqueta “número um” da coleção. Daltro conta que o aparelho lhe foi doado pelo irmão mais velho, Darlou, em 1989. “Na época, precisava de reparos, então fui à procura de esquemas e válvulas para meu novo mascote”, relembra. Só depois de meses trabalhando no conserto do histórico transmissor é que foi possível sintonizar uma estação.

D’Arisbo conta que seus vizinhos, testemunhas da determinação em recuperar o rádio do pai, começaram a presenteá-lo com todo tipo de quinquilharia que encontravam. Quando se deu conta, já havia reunido mais de 60 aparelhos. Alguns serviram apenas para desmanche e reaproveitamento de peças. Depois de restaurar essa primeira leva de rádios, os equipamentos foram levados para a casa de um dos filhos, onde permaneceram por quase duas décadas. Pouco tempo atrás, D’Arisbo resolveu aproveitar as facilidades da internet e reativou o antigo hobby. “São 22 anos desde aquele primeiro Hallicrafters, e posso dizer que o grande marco foi a internet. Foi depois dela que a coleção teve realmente um grande impulso”, garante. Mas, assim como acontece em qualquer transação via web, o comprador está sujeito a golpes e desilusões. Ele relata que um Hallicrafters comprado há pouco tempo, por exemplo, foi uma decepção. “Comprei de uma sem-vergonha”, resmunga. Mesmo assim, relata que até hoje teve mais sorte do que azar nas aquisições feitas a distância.

Virtualmente, o colecionador troca experiências com gente do mundo inteiro – além de encomendar peças e descobrir raridades. “Falo com neozelandeses, sul-africanos, alemães, ingleses, americanos, argentinos”, diz. A grande vantagem da rede é que, assim como acompanha o desenvolvimento de outras coleções, você pode acessar esquemas e manuais de peças já restauradas. É o caso, por exemplo, de um modelo super-heteródino da RCA, datado de 1925: “Achei a página de um sujeito que desmanchou tudo, fotografou e descreveu com bom humor tudo o que fazia. Com essa ajuda, isso aqui [o rádio que está restaurando] está mais ou menos tranquilo”, avalia. Aliás, uma das diretrizes que costuma seguir ao começar as restaurações é não interrompê-la – sob pena de perder o fio da meada. “É um trabalho que mexe muito mais com a cabeça do que com as mãos”, diz. Talvez seja por isso que D’Arisbo garanta que, além de hobby, mexer em seus rádios é uma ótima terapia. “Ali é onde os psiquiatras perdem dinheiro”, brinca, apontando para a pequena sacada de seu apartamento, convertida em oficina.

Reconhecimento

A dedicação de D’Arisbo o coloca entre os mais importantes colecionadores de rádios do Brasil. Seu conjunto de raridades, somado aos de outros três gaúchos, ultrapassa a marca de 800 receptores. “Em Ijuí existe a bela coleção do professor universitário Ari Zwirtes, que em muito me ajudou, numa espécie de irmandade radiófila”, comenta. D’Arisbo destaca ainda o acervo de rádios com receptores neutrodinos e regenerativos, da década de 1920, pertencentes a João Azzolin, de Ijuí, e também a coleção de Luiz Wagner, de Bagé. “Juntos, temos o acervo mais significativo do Brasil”, garante. Uma das explicações para a concentração de radiófilos em solo rio-grandense é a proximidade com a Argentina, país onde os aparelhos chegaram antes do Brasil. “Tem também o fato de que no Brasil não temos esta cultura. Fora da região sul, só conheço outros dois colecionadores. No Uruguai e na Argentina, eles são muito preservadores, curtem muito isso tudo”, comenta.

Não se trata de um hobby barato. Tanto que o criador do Museu do Rádio critica os preços praticados em território brasileiro. “É absolutamente vergonhoso. Nos Estados Unidos, compra-se um rádio dos anos 1930 funcionando por US$ 200. Aqui, esse mesmo rádio é vendido por R$ 2 mil, um furto”, assinala. D’Arisbo não sabe quanto vale seu acervo – ou melhor, diz que até imagina, mas prefere não revelar. Em vez disso, faz uma abstração: “Rádio é como filho, não tem preço. Algumas pessoas comercializam, compram, vendem. Eu só compro e gasto”. O RCA de 1925 que estava restaurando quando recebeu a reportagem de APLAUSO, por exemplo, foi comprado há pouco tempo de um argentino radicado em Santa Catarina. Sem nenhum restauro, está avaliado em R$ 1 mil.

DNA colecionista

O apartamento onde está a maioria dos 150 aparelhos do Museu do Rádio é aberto à visitação. D’Arisbo diz que recebe, em média, 30 pessoas por semana: “A grande maioria fica maravilhada e, embora não entenda muito, faz perguntas”. Atualmente, o museu aloca apenas o suprassumo da coleção. Alguns rádios voltaram a ser guardados na casa do filho. “A parte que não é tão rara fica lá. Além disso, eu também alugo uma peça aqui perto, onde estão os equipamentos à espera de restauro”, explica. Nessa espécie de depósito, Daltro relembra da infância ao brincar com a filha, de 10 anos: “Ela adora fazer bolinhas de solda e sempre pede que eu ensine como se emendam os fios”.

O gosto pelo colecionismo parece fazer parte do DNA da família. O irmão, Darlou, que vive em Toledo (PR), é um dos maiores colecionadores de máquinas de costura antigas do país – somando mais de 300 peças em um pequeno museu. “Existe algum gene, alguma coisa no DNA que deu nisso. Eu e meu irmão, que somos muito diferentes, temos essa coisa de pesquisar e lidar com antiguidades que nos aproxima muito”, reforça. Sentado em meio a um emaranhado de fios, botões e rádios à espera da ressurreição, Daltro D’Arisbo anseia que a herança genética continue fazendo sua parte. “Espero que algum filho ou algum amigo perpetue isso tudo. É a melhor memória que poderia querer, bem melhor do que uma lápide.”

Para saber mais, visite http://www.museudoradio.com.br

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