01/11/2011

Recônditos da Campanha

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O Guri, primeiro longa-metragem rodado em Bagé, mistura tragédia familiar, conto fantástico e drama psicológico

Por José Francisco Botelho

“O sonho não tem lindeiros nem tapumes”. É com esta bela frase de João Simões Lopes Neto que tem início O Guri – mistura de tragédia familiar, conto fantástico e drama psicológico, o filme é o primeiro longa-metragem inteiramente gravado em Bagé, na região da Campanha.

Produzido entre 2007 e 2011, com boa parte das locações em meio às paisagens inebriantes e perturbadoras do Rincão do Inferno e das Palmas – duas das regiões mais agrestes do Brasil – o longa conta a história do menino Lucas, que vive em um ermo rural devastado por uma guerra anônima e interminável. Todos os homens partiram “para pelear contra os castelhanos”. Em uma terra habitada apenas por mulheres (algo histéricas pela escassez do sexo oposto), Lucas terá de haver-se com uma obscura maldição familiar: sétimo filho de um sétimo filho, ele aguarda a noite em que a lua cheia o convocará para as trevas, o delito e a loucura. No conto desse possível menino lobisomem, cercado por ebulições de desejo contido e pelo vento que constantemente corta o pampa, o diretor e roteirista Zeca Brito mostra os recônditos de um Rio Grande do Sul profundo e desconhecido.

A epígrafe de Simões Lopes Neto, que abre o filme, é das mais apropriadas: até uma década atrás, a ideia de fazer cinema na Fronteira gaúcha poderia parecer um sonho dos mais desbragados. Mas foi precisamente o caráter inusitado do projeto que deu ânimo a Zeca Brito e sua equipe, formada quase que inteiramente por profissionais estreantes. “Mais de 70% das pessoas envolvidas em O Guri nunca tinham feito um filme”, revela Zeca.

O diretor, que é bajeense da gema, contou com o apoio fervoroso dos conterrâneos: o elenco foi todo escalado na cidade e, além de não receberem cachê, muitos atores chegaram a abrir os bolsos para tocar a quixotesca empreitada. Tudo isso em nome de uma missão telúrica: colocar o pampa bajeense nas telas. “Na questão visual, a cidade já fora muito bem representada pelas artes plásticas”, diz Zeca, lembrando pintores de expressão nacional, como Glauco Rodrigues e Glênio Bianchetti. “Agora, é a vez do cinema explorar o manancial estético da região”.

E que manancial. Com uma cinegrafia que une o sutil ao grandioso, o filme lembra às vezes a amplidão dos westerns de Anthony Mann e de John Ford. Já o argumento central remete a clássicos do horror como O lobisomem de Paris, de Guy Endore. Na hora de revelar suas influências, no entanto, Zeca aponta em uma direção bem diferente: o cinema de Pasolini e Antonioni, e o teatro de Garcia Lorca. “Aquele clima de histeria sexual, gerado pelo tesão contido, foi inspirado diretamente pela peça A casa de Bernarda Alba”, conta o realizador.

O Guri é uma coprodução das gaúchas Coletivo Inconsciente, Besouro Filmes e Avalanche com as produtoras paulistas Delicetessen Filmes, Goiabada Prodicions e Muiraquitã Filme.

Misturar com sucesso Simões Lopes Neto, licantropia e Garcia Lorca foi certamente uma façanha e tanto – mas não maior do que filmar em locações remotas, às vezes em campo aberto, às vezes no meio do mato. E com pouco, pouquíssimo dinheiro. “Foi um exemplo de filmagem colaborativa. Todo o elenco ajudou na produção”, revela Zeca. “Quando começamos a gravar, não tínhamos financiamento algum. Foi tudo na cara e na coragem. Só conseguimos captar recursos quando o filme já estava pela metade”.

À façanhuda produção não faltaram causos bem ao sabor dos folclóricos pagos bajeenses. A equipe viajava às locações na caçamba de camionetas, que atolavam regularmente nas lamas atávicas do pampa; mosquitos e mutucas eram frequentadores habituais dos sets de filmagem e da epiderme dos atores; câmeras e tripés tinham de ser carregados nos ombros, ao longo de tortuosas picadas – morro acima, morro abaixo, e morro acima outra vez.

Findas as gravações, findaram-se também os recursos, e o filme ficou engavetado por mais de um ano, à espera do dinheiro necessário à pós-produção. E por isso é que só agora – quatro anos após o início das filmagens – o aventuroso longa finalmente apeou nas telas. “Foi uma peleia braba”, resume Zeca. Mas, sim, uma boa peleia.

O Guri está em cartaz no Cine Santander, no Santander Cultural, em Porto Alegre.

2 ideias sobre “Recônditos da Campanha

  1. Parabéns diretor Zeca Brito e toda sua equipe de filmgem pela notável façanha e incansável persistência.Parabéns cidade de BAGÉ! O filme “O GURI”,será certamente sucesso.

  2. Parabéns diretor Zeca Brito e a toda equipe de filmagem pela notável façanha e incansável persistência.Parabéns cidade de Bagé!O filme “O Guri” certamente será sucesso.

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