14/12/2011

Margs traz obra do alemão Gerhard Richter

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Porto Alegre recebe pela primeira vez, a partir do dia 15 de dezembro, uma exposição do pintor Gerhard Richter. O projeto é viabilizado por uma parceria entre o Instituto de Relações com o Exterior da Alemanha, o Goethe-Institut e o Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (Margs).

Escolhidas pelo próprio Richter, as obras contemplam diferentes fases de sua criação, da fotografia-pintura dos anos 60 às pinturas abstratas dos anos 80 e 90. “A obra de Richter rejeita a noção de estilo. Seria ingênuo procurar em suas pinturas características como similaridade formal e coerência temática, pois sua obra as rejeita sistematicamente, não de modo deliberado, e sim pela simples abordagem do assunto pintura”, assinala Gaudêncio Fidelis, diretor do Margs. A exposição de Richter – considerado juntamente com Sigmar Polke e Georg Baselitz um dos três artistas alemães mais conhecidos internacionalmente – ocupará as galerias superiores do Margs. Atualmente, Gerhard Richter, 79 anos, vive e trabalha em Colônia, na Alemanha.

Gerhard Richter: A Pintura em Seus Limites
Por Gaudêncio Fidelis, diretor do Margs

Exibir a obra de Gerhard Richter no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) é certamente um acontecimento. Entretanto, ao contrário do que possamos concluir, não se trata de promover um evento celebratório, mas de anunciar uma vez mais a atualidade da pintura contemporânea.

Em 1936, Alfred H. Barr Jr. criou para a exposição Cubism and Abstract Art um esquema que assinalava os principais períodos da história da arte e demarcava um caminho unidirecional do Modernismo que viria a estabelecer por gerações seguidas as premissas canônicas da produção artística das grandes narrativas. Muitos diagramas viriam a ser feitos posteriormente, mas nenhum deles com a autoridade conceitual daquele criado por Barr. É significativo, portanto, que Richter tenha escolhido como uma das obras desta exposição seu conhecido diagrama Übersicht (Sinopse), 1998, que assinala seletivamente uma lista considerável de indivíduos que moldaram a cultura ocidental por mais de 600 anos. Ao contrário do esquema de Barr, a obra de Richter é não hierárquica e anticanônica. Nela se observa uma alienação intencional do conteúdo em relação à imagem, evidenciando que a obra do artista é antes uma construção em torno do assunto da pintura e de sua condição histórica. Contudo, Richter faz isso de modo que o espaço cultural da pintura coincida com aquele da tradição pictórica. Afinal, fazer pintura sem necessariamente pintar poderia ser uma das premissas da obra desse artista.

A obra de Richter rejeita a noção de estilo. Seria ingênuo procurar em suas pinturas características como similaridade formal e coerência temática, pois sua obra as rejeita sistematicamente, não de modo deliberado, e sim pela simples abordagem do assunto pintura. O artista não faz pintura simplesmente pintando, mas tomando-a como proposição temática através de uma imbricação simultânea entre o ato de pintar o mundo que nos rodeia e os limites de sua representação, rompendo a lógica espacial da credibilidade. Nesse processo, os diversos gêneros da pintura misturam-se em um repertório híbrido que situa Richter entre os mais interessantes artistas da atualidade. O rompimento da gênese da representação através do uso de constantes mecanismos encontrados na práxis da pintura (mancha, veladura, esfumato, gestualidade, textura, reprodução, etc.), de modo às vezes bastante banais, geram dúvidas sobre a sua qualidade artística, fazendo dela uma produção pictórica singular.

O artista suprimiu o dilema artístico ao restringir o universo de decisões sobre o que pintar, escolhendo indiscriminadamente seus motivos. Richter reanimou o universo da pintura deslocando o papel do espectador (antes preso pelas regras do Modernismo canônico) para um espaço de liberdade interpretativa que somente um vasto campo de proposições pictóricas poderia propiciar. Ao manchar algumas de suas pinturas, borrando-as ou retirando-as de foco, o artista corrompe a gênese da imagem, desfazendo a hierarquia dos princípios da representação. A clareza e a legibilidade são negligenciadas em favor da pictorialidade, assim como a verdade é substituída pela dúvida. A obra de Richter abandonou por completo qualquer senso de naturalismo romântico que muitos de seus contemporâneos não conseguiram deixar para trás. Criando uma pintura destituída de regras formais baseadas em noções de estilo, ele atravessa um enorme repertório de problemas artísticos, levando a uma exacerbação do raciocínio pictórico que o impulsiona para o universo da descaracterização da linguagem pictórica, tal como a concebemos. A dimensão da pintura realiza-se, assim, pela considerável soma de assuntos a serem pintados, os quais o artista explora de maneira que sua vontade parece nunca estar subjugada à tradição.

Podemos dizer que o ingresso de Richter no território da fotografia durante os anos de 1960 deveu-se principalmente à impossibilidade desta de gerar uma relação coerente entre a realidade política e o imaginário individual, em especial à luz de seu expatriamento da Alemanha oriental para o ocidente no início daquela década. Um exemplo nesta exposição pode ser a pintura Onkel Rudi (Tio Rudi), 2000, um diálogo nostálgico da imagem com o expectador que a observa, demonstrando que o mecanismo de identificação da pintura pode ser um território perigoso, visto que a simpatia com a imagem pode ser traída por um contexto político problemático. Na verdade, a pintura retrata um momento significativo situado entre a história pessoal, corroborada pela afetividade, e o conflito histórico que dela não pode desapegar-se. Tio Rudi é baseado em uma fotografia de um oficial alemão da Wehrmacht [Exército alemão], o próprio tio de Richter, fotografado pouco antes de partir para a guerra durante a qual veio a morrer em nome do regime nazista. O apagamento e o desfocado de suas pinturas por vezes são emblemáticos de um passado que persiste nos interstícios da memória, ao mesmo tempo em que projetam para o nível da consciência a impossibilidade de erradicá-lo. A ausência de uma via alternativa para a pintura, fora das prerrogativas da representação no caso das obras de Richter, demonstra a irredutibilidade da realidade ao território ficcional da imagem.

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