22/03/2012

Uma obra para Xico

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José Francisco Alves lança Stockinger – Vida e Obra, biografia escrita ao longo de quase seis anos

José Weis

Há quem diga que um livro nunca é suficiente para contar a vida de um grande artista. Pode até ser, mas o fato é que a vida e a obra de Francisco Alexandre Stockinger precisavam ser contadas em um grande livro. Dia 22 de março, José Francisco Alves, curador-chefe do Museu de Artes do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (Margs), lançou Stockinger – Vida e Obra, livro de 308 páginas editado pela Multiarte, procurando preencher o vazio deixado por um dos maiores artistas brasileiros das últimas décadas.

Alves conta que precisou de quase seis
anos para concluir a obra. “Foi um
trabalho exaustivo, mas bastante compensador, que na verdade era feito para homenagear o Xico em vida, mas isso não foi possível”, lamenta. Durante pelo menos três anos, até a morte de Xico, em abril de 2009, biógrafo e biografado estiveram muito próximos. “Ele me abriu todos os seus documentos, todos os seus materiais”, recorda Alves, que também é editor de as partes, revista do Atelier Livre de Porto Alegre. Ao revelar que a iniciativa de escrever sobre Xico partiu de si próprio (não tendo sido contatado por galerias de arte ou mesmo pelo artista), Alves lamenta o fato de que poucos artistas brasileiros da segunda metade do século 20 têm uma biografia tão detalhada como esta. “Um artista do porte de Xico Stockinger precisava de um livro à sua altura”.

Alves resgata a vida de Xico desde seu nascimento, em Traun, pequena cidade localizada na Alta Áustria, até seus últimos dias, em Porto Alegre, onde viveu por 55 anos. Foi uma trajetória longa e múltipla: ainda na infância, no interior de São Paulo, o jovem Francisco Alexandre se mostrava um menino fascinado por máquinas, desenhos em quadrinhos, futebol e aviação. Com espírito solidário e o senso político aguçado, engajou-se na defesa da Legalidade e ajudou a fundar e dirigir entidades como o Atelier Livre de Porto Alegre. Entre muitas curiosidades, uma se sobressai: o criador de séries de esculturas, como Gabirus, não costumava ler críticas a seu respeito. “E, se lia, não dava a mínima importância”, diz Alves. Pelo hábito de não procurar saber sobre o que a imprensa dizia a respeito de sua obra, muitas informações e registros vistos hoje – “como datas de algumas criações”, observa Alves – aparecem equivocadas.

Nascido na Áustria e criado em São Paulo, Xico escolheu Porto Alegre como seu porto seguro. Nem por isso, o reconhecimento de sua obra deixou de extrapolar fronteiras. Na biografia, consta o trecho de um fax símile escrito por Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São Paulo, que num longínquo ano de 1966 descreveu Xico da seguinte maneira: “Um suave escultor, ponderado, místico; mudou-se, de improviso, populando o seu atelier com os heróis de um mundo sem senso, fundindo bronzes, juntando-os com madeira queimada, pedaços de máquinas, pregos, petrificando gestos extremos de adeus à vida”.

Do tamanho de um guerreiro

A carreira de Xico teve início em 1946 e perdurou até 2009, quando de seu falecimento. Apesar de ter começado já maduro, Xico Stockinger deixou uma obra impecável, da escultura à gravura, da charge à caricatura. Além disso, teve inúmeros textos publicados em jornais, onde  escrevia sobre artes plásticas. No livro, estão histórias de amizades ilustres, como as que manteve ao longo de anos com outros talentosos artistas, entre eles Iberê Camargo, Vasco Prado e Mario Quintana. Este último teve seu busto eternizado pelo amigo, peça que hoje adorna a Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre.

Stockinger – Vida e Obra tem o mérito de ainda apresentar um levantamento minucioso de exposições, recortes de jornais e prêmios envolvendo o artista. Para José Francisco Alves, o período mais importante na obra de Xico remete à década de 1960. “É quando ele descobre a marca que o tornou reconhecível, os trabalhos com madeira e ferro”. Outro capítulo do livro dá atenção especial às obras públicas, como as grandes esculturas, hoje espalhadas entre São Paulo, Rio de Janeiro e, evidentemente, Porto Alegre. São dele, por exemplo, as chapas de ferro da Praça Dom Sebastião, próxima ao colégio do Rosário, na capital gaúcha. Outra obra que não passa despercebida é a escultura de Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade conversando, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre.

Stockinger – Vida e Obra, de José Francisco Alves, recebeu apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Para quem não teve a oportunidade de conhecer Xico e sua obra, trata-se de uma descoberta e tanto. Para os amigos e admiradores, o livro pode ser considerado um reencontro emocionado com o afeto e a competência de Xico – alguém tão grande e marcante quanto seu maior guerreiro, que desde 2008 encontra-se no Margs.

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